Os Esquecidos, Pedro Neves

Filed in Curtas PolegarMente.me by on June 28, 2014 0 Comments

Os esquecidos1
Ficha Técnica

Realização e produção: Pedro Neves
Argumento: José António Pinto, Pedro Neves
Imagem: Pedro Neves
Montagem: Carlos Ruiz, Pedro Neves
Mistura de Som: Marco Conceição
Grafismo: Pedro Pimentel
Portugal, 2009, 62′

 

No documentário Os Esquecidos, Pedro Neves filmou a sobrevivência desumana da natureza humana ou o absurdo da existência.
Os barracos habitados por estas gentes são autênticos cárceres. Candidinha dorme de luvas e xaile. Agasalhada da cabeça aos pés tenta iludir o frio que se instala no casebre, lhe contagia o corpo e lhe mina os ossos.
Ramiro foi obrigado a desistir do trabalho para não desistir da esposa, totalmente dependente dos seus cuidados. Dentro de uma bacia, sentada numa cadeira, dá-lhe banho com a água que vai aquecendo no fogão. Lava-a “à cão”, é a sua expressão.

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Alexandre, filho de Helena e Albino, é um adolescente para quem a vida se encarregou de reduzir os sonhos, num futuro longínquo, a “uma casinha, uma família sua, um carro”.

Os esquecidos3

José Luís é um destroço humano. Sente-se “um cão vadio”. Não se lembra de não dormir na rua. Sem amigos e com uma família que não quer saber dele, tem por companhia o frio, o vento e a chuva. Reconforta-o a estátua da nossa senhora de Fátima.

Os esquecidos

Os direitos consignados na lei suprema do país[1] ignoram as condições miserabilistas destas existências. É como se por cada direito declarado na constituição portuguesa houvesse um não direito oculto; por cada princípio teórico, uma outra realidade existencial que se encarrega de o negar.
Excluídos dos direitos “a um ambiente de vida humano”, “a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar”, “à educação”; privados do bem-estar mais elementar do ponto de vista bio-socio-económico, estas pessoas transportam nas rugas as desilusões da injustiça social que, como se sabe, têm uma raiz política.
No universo ficcionado por Georges Orwell, 1984, Winston trabalhava no ministério da verdade laborando na mentira. Apagar o passado, reescrevendo-o para o conformar à realidade presente. No caso português, a realidade presente nega a (lei) escrita. Em ambos os casos, há um desajustamento entre o ser e o dever ser.
Tal como o partido omnipotente e omnipresente da Oceânia rejeita os dados empíricos, também a constituição portuguesa e, com ela, os agentes políticos permanecem indiferentes à realidade destas pessoas.
Creio que, tal como há vários tipos de memória, há vários tipos de esquecimento. Do esquecimento involuntário, decorrente de patologias clínicas, como a amnésia, ao esquecimento intencional, fruto de interesses políticos, há diferenças de género e de natureza. Mas ambos são patológicos. Desordens neuro-psicológicas num caso; patologias político-morais no outro. Percebe-se que nas desordens do segundo tipo, o esquecimento não é, como bem referiu Nietzsche, passividade, é ocultação deliberada.
O documentário, ancorado nas memórias destas gentes anónimas, ao desocultar o presente segundo a estratégia testemunhal recoloca-o, reinscreve-o, enquanto passado, na história de portugal do séc. XXI.
E o filme tem o mérito de conservar a narrativa (a memória) destes sobreviventes da desesperança, possibilitando o reconhecimento da “miséria, da sujidade, da indiferença”[2] humanas.
Pedro Neves sente que da ocultação destas existências poderá advir um segundo esquecimento relativamente ao esquecimento primeiro. Sabe que os relatos destas vidas, rompendo com o silêncio da memória, integram a memória colectiva. Convoca as memórias passadas, nas vidas presentificadas, tentando tornar inteligível quando e como opera a patologia social do abandono. E fá-lo por imperativos éticos porque a captação do (que está) mal é condição primeira para a reflexão e para o debate esclarecidos e fecundos, apenas, na condição de lhes suceder uma praxis que o combata e o aniquile.
Daí que só tenha sentido preservar a memória colectiva se ela for crítica e tiver subjacente uma vertente moral.
Talvez se devesse reescrever a constituição portuguesa, “vaporizar” os políticos porque mais do que conservar a vida destas pessoas importa recuperar a sua humanidade perdida e isso só será possível com a reinvenção deste país.

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[1] E um país com esta natureza só pode ter o nome escrito com letra minúscula.
[2] Georges Orwell, 1984 (1949). Público, Colecção Mil Folhas, Reedição de 2002, pág. 83.

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Elsa Cerqueira

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