O Besta Célere, Regina Sardoeira

Filed in Livros PolegarMente.me by on March 8, 2014 4 Comments

O Besta Célere

Editora: Bubok
ISBN: 978-84-686-4638-1
Género: Romance
Páginas: 235
Ano da 1.ª edição: 2014

 

«(…) Besta Célere acreditava piamente que se fosse capaz de viver a uma impressionante celeridade o tempo de vida que lhe restava seria capaz de anular ou ao menos atenuar em elevado grau a inércia e o desbarato dos anos transcorridos.»
Regina Sardoeira, O Besta Célere

 

O Besta Célere, protagonista do novo romance de Regina Sardoeira, é um animal humano iludido de que poderá ganhar tempo, paradoxalmente, depois de o ter delapidado nos anos em que viveu futilmente, dedicado a «ocupações medíocres». Essa recuperação do tempo é coetânea da sua busca à genealogia do seu ser.
A obsessão com o tempo impele-o a viver submetido a uma rotina minuciosamente cronometrada. Todos os segundos de todos os dias da sua existência são alvo de rigorosa medição: sabemos quanto tempo pode dispensar à reflexão matinal, ao culto religioso, às refeições, bem como os artifícios que lucubra para acelerar a sua celeridade: dorme meio vestido na cozinha, as calças não possuem fecho, o pequeno-almoço consiste numa papa com a duração de três dias, usa um saco cama para dormir e utensílios de cozinha descartáveis, passando a urinar e a defecar em simultâneo!
Eis-nos perante uma personagem bizarra com duas ocupações que inicialmente se sucedem e depois se complementam: primeiro apresenta-se-nos enquanto vendedor de relógios. Ironia sublime para quem procura ludibriar o tempo medido; depois descobre uma outra vocação: a de escrevedor de cartas.
Pode ler-se na obra: «Se os relógios cronometram o mundo as cartas são ainda o veículo privilegiado da comunicação e nem todos sabem escrevê-las». Os primeiros são descritos como «autênticas metáforas da cronometria»; as segundas permitem-lhe comungar das desgraças universais, quer dizer, dos problemas existenciais dos seres com que se cruza na sua existência.
É um vendedor de relógios relojoeiro, ofício que aprendeu com o seu avô, que exibe com orgulho desmedido «as dezenas de relógios perfeitamente alinhados» e protegidos na mala de couro preto na qual os transporta, abrindo-a, amiúde, sobre bancos de jardim – locais de passagem de vidas de transeuntes, que passam sincronicamente com a passagem das vidas.
A primeira carta que escreve é uma carta de amor ficcionada, fruto de uma inspiração repentina e de um ímpeto especulativo, numa idade em que ainda não se reconhecia como Célere. Nesse momento, a sua genialidade enquanto epistológrafo foi-lhe revelada.
Ao longo da obra somos surpreendidos com epístolas cuja natureza e fim são díspares: desde a mulher que necessitava de requerer um subsídio de invalidez, a uma prostituta que pretende escrever ao filho para que deixe de frequentar a hospedaria imunda na qual trabalha, a uma outra na qual um pedreiro quer escrever a uma estudante liceal, àquela em que um padre desesperado deve escrever a deus, aqueloutra do Ministro dos Assuntos Financeiros e Económicos, cujo talento é a representação teatral, à da jovem que pretende suicidar-se. Mas sobre esta o leitor permanecerá intrigado, tanto quanto o escrevedor, por não saber se foi real ou sonhada. Finalmente, há a carta do jovem que que renúncia ao matrimónio, com uma mulher de meia-idade, a duas horas do enlace.
Redigidas sempre na primeira pessoa, a assinatura de Besta Célere oscila entre os dois géneros, o feminino e o masculino. Através destas cartas o protagonista, por um lado, dá-se conta da complexidade, dramaticidade e vacuidade da vida;  por outro lado, a autora, mediada pela personagem, não renúncia a tecer críticas à burocracia, às condições miserabilistas da prostituta – «mulher da vida», literalmente como todas as demais; à situação dilemática do padre cuja castidade impõe a negação plena da sua humanidade, à rejeição do jovem noivo a pretexto de falsos moralismos ou à ascensão do político fruto de habilitações forjadas.
E as cartas, essas mensageiras, terão também o papel de suscitar em Besta Célere «memórias imprevistas». Eis o momento no qual se percebe que Besta Célere ousou «durante dois anos cinco meses e vinte e três dias» estar apaixonado e ter almejado a felicidade. Todavia, ao amor sucedeu o seu oposto e Besta Célere abandonou esse simulacro de amor.
Há dois capítulos plenos de intensidade e interesse: um designado como «João Baptista», descreve a perplexidade e a expressão atónita de Besta Célere quando confrontado, no interior de uma igreja, com um ritual que se lhe afigura como sendo o de um assassinato de um bebé, não passando, afinal, do ritual de baptismo; o outro, sob o nome de «Branco e Azul», dá-se durante a sua regressão vital e radica no facto singular do seu nascimento ser descrito pelo próprio, isto é, na primeira pessoa. O primeiro capítulo citado desvela-nos o olhar distanciado, fruto da ignorância, de Besta Célere face ao evento presenciado; o segundo manifesta o olhar de pertença que nos desvenda o sofrimento atroz de quem brota.
A narrativa d’ O Besta Célere é analéptica: a biografia do protagonista inicia-se pelo seu fim. O leitor assiste à morte, à velhice, à maturidade, à adolescência, à infância e ao nascimento. A temporalidade é, assim, parceira de um processo de desconstrução/reconstrução da identidade através do qual Besta Célere se vai conhecendo e, desta forma, apropriando-se de si. O tempo que procura insistentemente readquirir é tempo ontológico pelo qual anseia reconhecer-se.
E é no momento da sua invisibilidade mor, própria de quem está prestes a nascer ou a existir – e de quem não sabe quem é e o que existe -, que Besta Célere se sente senhor de si e do tempo.
E a pergunta capital não emerge nem no início/fim, nem no fim/início da obra, mas sobrevém à mente do leitor, sendo simultaneamente pessoal e universal: e se a Besta Célere – ou a nós próprios – fosse perguntado se desejaria (mos) ter nascido, o que responderia (mos)?

Elsa Cerqueira

 

Comments (4)

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  1. Filipe Sampaio says:

    Depois de uma análise tão profunda e filosófica sobre o livro «O Besta Célere» fiquei com vontade de o adquirir com a máxima celeridade para o ler! Adorei.

    • ElsaCerqueira says:

      Olá Filipe.
      Obrigada pelas tuas palavras.
      O livro é, de facto, um belo pretexto para se reflectir sobre a natureza efémera da vida e o seu (des)sentido.

  2. Regina Sardoeira says:

    Enquanto autora de ‘O Besta Célere’ não devo pornunciar-me: essa tarefa pertence ao leitor que se torna dono da obra, no memento em que a lê e frui. Fico, porém, muito feliz porque me dou conta do vigor interpretativo que dele emanou para ganhar forma na excelente análise da Elsa Cerqueira. O modo como cada leitor se apropria da obra e a faz sua representa um manancial para mim, enquanto autora, e logo criadora e não intérprete, enriquecendo-me profundamente, na justa medida em que enriquece as sublinhas do que, não estando explicitamente escrito, ali subjaz, como acervo complexo de uma estrutura que só revela- se revela – a superfície. Que venham muitos leitores e obrigada à Elsa e aos potenciais intérpretes!

    • ElsaCerqueira says:

      Olá Regina Sardoeira.
      Não tens que me agradecer. Como esclareço nos ‘Prolegómenos’, o PolegarMente é um blogue de fruições. Das minhas fruições.
      Fico duplamente grata pelo teu comentário: primeiro porque és a criadora da obra e apraz-me saber que apreciaste a minha análise; depois porque com ele viabilizaste a dialéctica contemplador-criador!

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