{"id":165,"date":"2014-02-11T21:36:53","date_gmt":"2014-02-11T21:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=165"},"modified":"2014-03-14T20:03:07","modified_gmt":"2014-03-14T20:03:07","slug":"ruinas-manuel-mozos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=165","title":{"rendered":"Ru\u00ednas, Manuel Mozos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/mozos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-186\" alt=\"mozos\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/mozos.jpg\" width=\"300\" height=\"171\" \/><\/a><\/p>\n<p><b>F<\/b><b style=\"line-height: 1.5em;\">icha t\u00e9cnica:<\/b><\/p>\n<p>Argumento e Realiza\u00e7\u00e3o: Manuel Mozos<br \/>\nG\u00e9nero: Document\u00e1rio<br \/>\nM\u00fasica: Anakedlunch<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: O som e a F\u00faria<br \/>\nPortugal, 2009, Cores, 60\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto objecto est\u00e9tico, o filme Ru\u00ednas de Manuel Mozos \u00e9 bel\u00edssimo.<br \/>\nA hist\u00f3ria inicial de Henriqueta e de Etelvina \u00e9 a de um amor desmesurado que subsiste atrav\u00e9s do ritual das flores, ap\u00f3s as suas mortes. \u00c9 esta a liga\u00e7\u00e3o inquebr\u00e1vel do cineasta com as (suas) ru\u00ednas.<br \/>\n\u00c9 um filme po\u00e9tico-filos\u00f3fico sobre a desconstru\u00e7\u00e3o do humano, das suas ac\u00e7\u00f5es, sobre a inequ\u00edvoca realidade da decomposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA pan\u00f3plia de edif\u00edcios abandonados pelo animal humano constituem fragmentos de biografias, cujas imagens desfilam na tela entrela\u00e7adas por algumas mem\u00f3rias que resistem \u00e0 eros\u00e3o dos tempos cronol\u00f3gico, f\u00edsico e psicol\u00f3gico.<br \/>\n\u00abUma pessoa s\u00e3o muitas pessoas dentro de uma s\u00f3\u00bb \u2013 escreveu Pedro Paix\u00e3o.<br \/>\nAnalogamente, cada ru\u00edna tem muitas ru\u00ednas dentro de si. \u00c9 que os edif\u00edcios s\u00e3o contadores de hist\u00f3rias, albergando as suas ra\u00edzes identit\u00e1rias. Mem\u00f3rias cimentadas em cada fragmento erguido. Mem\u00f3rias olvidadas em cada lugar que se perdeu.<br \/>\nTodavia, n\u00e3o h\u00e1 vazio quando as mem\u00f3rias resistem, n\u00e3o h\u00e1 vazio quando os esqueletos arquitect\u00f3nicos subsistem.<br \/>\nOs lugares, os espa\u00e7os, os objectos, talvez sejam como as pessoas: esquecidos e substitu\u00eddos pelas gera\u00e7\u00f5es vindouras. Espectros de vidas que dinamizaram a hist\u00f3ria, repletos de hist\u00f3rias, evocadas no filme.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9, apenas, o abandono dos edif\u00edcios que nos incomoda e revolta. \u00c9 a m\u00e1goa de os sabermos inactivos, desprezados. As ru\u00ednas interpelam-nos porque remetem para o despertar de uma inconsci\u00eancia colectiva, mera antecipa\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria universal e do devir humanos.<br \/>\nSe tivermos percebido a relatividade e o aleat\u00f3rio de cada exist\u00eancia (material e imaterial), o filme ter\u00e1 tido o m\u00e9rito de desconstruir o preconceito que padecemos secularmente: o nosso antropocentrismo prim\u00e1rio. Desapossados de ideias, motivados por um materialismo desenfreado, abandonamo-nos \u2026 tal como fizemos aos edif\u00edcios erguidos por n\u00f3s.<br \/>\nPor isso, na dial\u00e9ctica constru\u00e7\u00e3o-destrui\u00e7\u00e3o que transcorre todo o filme, n\u00e3o creio que se deva procurar o que talvez nunca tenha existido: um fio condutor. E se o elo que buscamos, como necessidade imperiosa para justificarmos as nossas ac\u00e7\u00f5es \u2013 passadas, presentes, futuras \u2013 for inexistente?<br \/>\nAfinal, a insist\u00eancia em encontrar um sentido, uma teleologia, \u00e9 uma pretens\u00e3o humana e uma irrealidade arquitect\u00f3nica.<br \/>\nE se o des-sentido for mais forte e cada ru\u00edna uma hist\u00f3ria perdida-reencontrada pelo cineasta?<br \/>\nA nossa ac\u00e7\u00e3o sobre o planeta Terra oscila, tal como os nomes das ruas, entre o desejo de acedermos ao estatuto de \u00abMilion\u00e1rios\u00bb e a realidade de sermos corrosivos, como o \u00ab\u00c1cido sulf\u00farico\u00bb.<br \/>\nSimilares a um sanat\u00f3rio que cura, mas n\u00e3o se cura, tra\u00e7amos irremediavelmente a nossa patologia: desalojadores\/ despojadores de edif\u00edcios, renunciadores de ideais.<br \/>\nO filme transporta-nos para um universo po\u00e9tico: o da comunh\u00e3o do mundo natural com a queda anti-natural destes edif\u00edcios. Percept\u00edvel, por exemplo, nas folhas que se prolongam e parecem insistir em penetr\u00e1-los, n\u00e3o como invasores hostis, mas como presen\u00e7as reconfortantes. Cada imagem, cada sil\u00eancio, cada voz, cada som, imp\u00f5e-se-nos \u2013 exigindo do espectador uma atitude de puro respeito -, porque desvelam o que fomos\/somos.<br \/>\nE se pensarmos que o envelhecimento \u00e9 a ru\u00edna do corpo humano e que as mem\u00f3rias pouco claras constituem a ru\u00edna de uma mente l\u00facida, saberemos que todos n\u00f3s somos, inelutavelmente, ru\u00ednas em pot\u00eancia.<br \/>\nBel\u00edssima met\u00e1fora da ess\u00eancia e natureza humanas.<br \/>\nManuel Mozos ao erigir as ru\u00ednas em protagonistas recuperou-as. Ironicamente, com esta obra cinematogr\u00e1fica, elas sobreviver-nos-\u00e3o\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0<span style=\"text-align: right; line-height: 1.5em;\">\u00a0Elsa Cerqueira<\/span><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/WoFiMDk0qoI\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficha t\u00e9cnica: Argumento e Realiza\u00e7\u00e3o: Manuel Mozos G\u00e9nero: Document\u00e1rio M\u00fasica: Anakedlunch Produ\u00e7\u00e3o: O som e a F\u00faria Portugal, 2009, Cores, 60\u2019 \u00a0 Enquanto objecto est\u00e9tico, o filme Ru\u00ednas de Manuel Mozos \u00e9 bel\u00edssimo. 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