{"id":284,"date":"2014-02-13T12:57:28","date_gmt":"2014-02-13T12:57:28","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=284"},"modified":"2014-03-02T15:48:46","modified_gmt":"2014-03-02T15:48:46","slug":"vou-para-casa-manoel-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=284","title":{"rendered":"Vou para Casa, Manoel de Oliveira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.snpcultura.org\/fotografias\/id_vou_para_casa_manoel_oliveira.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.snpcultura.org\/fotografias\/id_vou_para_casa_manoel_oliveira.jpg\" width=\"378\" height=\"274\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong style=\"line-height: 1.5em;\">Ficha T\u00e9cnica:<\/strong><\/p>\n<p>Argumento e Realiza\u00e7\u00e3o: Manoel de Oliveira<br \/>\nG\u00e9nero: Com\u00e9dia, Drama<br \/>\nElenco: Michel Piccoli, Catherine Deneuve, John Malkovich<br \/>\nArgumento: Julia Buisel<br \/>\nProdutor: Paulo Branco<br \/>\nCo-produ\u00e7\u00e3o Madragoa Filmes (Portugal), Gemini Films (Fran\u00e7a), 2001, Cores, 90\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Rei (de) Ionesco \u00e9 convocado. \u00c9 com uma representa\u00e7\u00e3o teatral de cerca de doze minutos que se inaugura o filme. Presentifica\u00e7\u00e3o de duas representa\u00e7\u00f5es.O rei, debilitado fisicamente, recusa-se a ouvir as palavras que ditar\u00e3o o seu fim. Recusa-se a morrer.<br \/>\nSe a finitude \u00e9 certa, \u00abPor que \u00e9 que nasci?\u00bb \u2013 pergunta-se B\u00e9renger.<br \/>\nEsta \u00e9 a quest\u00e3o filos\u00f3fica simultaneamente transversal e premonit\u00f3ria dos acontecimentos que se suceder\u00e3o. Mas \u00e0 incerteza da vida op\u00f5e-se a certeza da morte.<br \/>\nGilbert \u00e9 impotente face \u00e0 morte acidental da esposa, da filha e do genro. Ningu\u00e9m controla os acontecimentos. Reage. Como filmar e exprimir a dor e o sofrimento?<br \/>\nCom um quarto escurecido. O esqueleto de uma cadeira acomodando-se e espraiando-se por entre os cortinados. Eis a cena onde silenciosamente irrompe o grito, n\u00e3o de Munch, mas de Gilbert. Um grito silencioso, amparado pelas m\u00e3os na sua tez inclinada. Alienam-se as palavras porque, como afirmava Cioran, h\u00e1 estados tensionais onde \u00abtoda a palavra \u00e9 uma palavra a mais\u00bb.<br \/>\nPor\u00e9m, quando o ser humano idealiza ou renuncia a projectos rompe com a indiferen\u00e7a, constr\u00f3i-se. Age. \u00c9 enquanto ser que valora que Gilbert assume ser dono de si pr\u00f3prio e autor do seu porvir. Condi\u00e7\u00e3o paradoxal de servo e senhor de si pr\u00f3prio.<br \/>\nO protagonista, soberbamente interpretado por Michel Piccoli, recusa-se a fazer uma s\u00e9rie televisiva, cuja hist\u00f3ria se lhe afigura banal, a de um velho decr\u00e9pito. Dispensa o sexo e a viol\u00eancia gratuitos. Um actor com inequ\u00edvoco talento, estimado pelo p\u00fablico, n\u00e3o escolhe o lucro imediato, n\u00e3o fomenta ou provoca o salivar pavloviano dos espectadores mais incautos. O p\u00fablico merece-lhe respeito. Contrariamente \u00e0s audi\u00eancias \u2013 olhares fortuitos condenados ao desamparo \u2013, que s\u00e3o por ele desprezadas.<br \/>\nSempre o mesmo caf\u00e9, sempre o mesmo lugar, o mesmo jornal, o mesmo gesto, o mesmo espelho e a mesma realidade: a dos carros cujo trajecto \u2013 tal como a vida \u2013 \u00e9 incerto. Um olhar ritualizado, cansado, triste.<br \/>\nHaver\u00e1 fuga?<br \/>\nAcompanhar, \u00e0 chuva, os dan\u00e7arinos da tela de Jack Vettriano. Escapat\u00f3ria \u00e0 sua \u00absolitudine\u00bb, ao envelhecimento, \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o dos ossos, \u00e0 implos\u00e3o da(s) mem\u00f3ria(s). A pintura \u00e9 a realidade reinventada. Tal como a representa\u00e7\u00e3o a sua amada.<br \/>\nH\u00e1 duas cenas que me impressionaram, quer pela sua originalidade, quer pela sua simplicidade, atrav\u00e9s das quais Manoel de Oliveira insiste em deslocar o seu olhar, conduzindo o do espectador para os p\u00e9s. Plano de pormenor aos sapatos. E se os sapatos falassem? E se os sapatos sentissem?<br \/>\n\u00c9 esta a maravilhosa ilus\u00e3o que nos invade.<br \/>\nNo caf\u00e9, os rostos dos actores intervenientes cedem lugar aos sapatos. E os novos, de Gilbert, gesticulam, revelando-nos com os seus ritmos os seus amores e desamores. No escrit\u00f3rio, os velhos reivindicam o direito ao fim de uma exist\u00eancia digna, em perfeita harmonia com o portador que assevera que jamais se vender\u00e1 a pap\u00e9is med\u00edocres.<br \/>\nDesejar\u00edamos ser estes sapatos. Ter esta coragem. Desejar\u00edamos ser a roda gigante que se liberta e percorre livremente as ruelas da exist\u00eancia.<br \/>\nA felicidade brota quando os afectos (av\u00f4-neto\/ Gilbert-Serge) comunicam entre si. Mas tamb\u00e9m ela \u00e9 finita, ainda que retida e eternizada pela\/na mem\u00f3ria.<br \/>\n\u00abTudo se dissipar\u00e1&#8230;\u00bb &#8211; ouve-se na pe\u00e7a de Shakeaspeare. Ser\u00e1 tudo em v\u00e3o?<br \/>\nOportunidade imperd\u00edvel: a adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica da obra liter\u00e1ria Ulisses de James Joyce. Um pequeno papel. O de Buck Mulligan. Uma grande honra em represent\u00e1-lo. O prazer renasce.<br \/>\nCena 1\/parte1\/take 1: nunca se v\u00eaem as personagens representar. Ouvem-se. Observa-se o olhar, com um misto de aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o, do realizador John Crawford (John Malkovich). Gilbert comete algumas falhas. Ser\u00e1 por imprepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via? Algumas palavras de Mulligan recusam-se a germinar.<br \/>\nDia seguinte. Algo est\u00e1 a acontecer. O texto invoca Deus. Sente-se o palpitar desassossegado do cora\u00e7\u00e3o de Gilbert. As gra\u00e7as a Deus n\u00e3o det\u00eam a desgra\u00e7a. Afinal, a falha reside no albergue dos afectos: a mem\u00f3ria.<br \/>\nSer algu\u00e9m implica ser portador de uma identidade, quer dizer, de caracter\u00edsticas essenciais. Este \u00e9 um legado gen\u00e9tico-cultural incompat\u00edvel com a perda desse patrim\u00f3nio. A mem\u00f3ria \u00e9 o cofre das viv\u00eancias. Recriando a c\u00e9lebre frase de Heidegger diria que \u00e9 a morada do Ser.<br \/>\n\u00abVou para casa\u00bb \u00e9 a capitula\u00e7\u00e3o. A constata\u00e7\u00e3o de que contra a aus\u00eancia da mem\u00f3ria nada se pode fazer. Realidade inelut\u00e1vel.<br \/>\nA representa\u00e7\u00e3o final de Michel Piccoli \u00e9, simplesmente, primorosa. Do deslizar do manto at\u00e9 ao ch\u00e3o, remetendo simbolicamente para a no\u00e7\u00e3o de ren\u00fancia ou perda, ao deambular perdido \u2013 o de algu\u00e9m privado das coordenadas da raz\u00e3o \u2013 pelas ruas, ensaiando o texto que ousa n\u00e3o lhe obedecer. As palavras consumidas corroem a sua alma, tal como os ossos que se v\u00e3o degradando, se apropriam e triunfam sobre o corpo.<br \/>\nO som do port\u00e3o a bater. A entrada em casa, com a cabe\u00e7a soerguida. A desaten\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o indistinta do neto. Entra. Sobe os degraus lentamente. P\u00e1ra. Reinicia a marcha.<br \/>\nDe alguma forma B\u00e9renger contagiou Gilbert. \u00c9, afinal, o rei de Ionesco: fr\u00e1gil e impotente. O absurdo tornou-se realidade.<br \/>\n\u00abSomos feitos da mesma mat\u00e9ria dos sonhos\u00bb, escreveu Shakespeare. E Gilbert sente-se incapaz de sonhar (representar). O que surge diante de n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 um homem, mas o seu destro\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 a vida uma tragicom\u00e9dia?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-align: justify; line-height: 1.5em;\">\u00a0<\/span>Elsa Cerqueira<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/M0zsfcpuWPk\" height=\"315\" width=\"420\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ficha T\u00e9cnica: Argumento e Realiza\u00e7\u00e3o: Manoel de Oliveira G\u00e9nero: Com\u00e9dia, Drama Elenco: Michel Piccoli, Catherine Deneuve, John Malkovich Argumento: Julia Buisel Produtor: Paulo Branco Co-produ\u00e7\u00e3o Madragoa Filmes (Portugal), Gemini Films (Fran\u00e7a), 2001, Cores, 90\u2019 O Rei (de) Ionesco \u00e9 convocado. \u00c9 com uma representa\u00e7\u00e3o teatral de cerca de doze minutos que se inaugura o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/284"}],"collection":[{"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=284"}],"version-history":[{"count":11,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":583,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/284\/revisions\/583"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}