{"id":627,"date":"2014-03-17T17:34:30","date_gmt":"2014-03-17T17:34:30","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=627"},"modified":"2014-03-22T19:19:21","modified_gmt":"2014-03-22T19:19:21","slug":"o-livro-dos-homens-sem-luz-joao-tordo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=627","title":{"rendered":"O Livro dos Homens Sem Luz, Jo\u00e3o Tordo"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/olivrodoshomenssemluz_1298656252.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone  wp-image-628\" alt=\"olivrodoshomenssemluz_1298656252\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/olivrodoshomenssemluz_1298656252-199x300.jpg\" width=\"159\" height=\"240\" srcset=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/olivrodoshomenssemluz_1298656252-199x300.jpg 199w, http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/olivrodoshomenssemluz_1298656252.jpg 333w\" sizes=\"(max-width: 159px) 100vw, 159px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Editora: D. Quixote<br \/>\nISBN: 978-972-20-4384-7<br \/>\nG\u00e9nero: Romance<br \/>\nP\u00e1ginas: 214<br \/>\nAno da 1.\u00aa edi\u00e7\u00e3o: 2004<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abA mem\u00f3ria \u00e9 a forma mais prec\u00e1ria de documenta\u00e7\u00e3o porque morre quando aquele que relembra morre, \u00e9 como se a vida fosse o documento de si pr\u00f3pria \u2013 uma vida que, a cada momento, se esquece de si.\u00bb<br \/>\nJo\u00e3o Tordo, O livro dos homens sem luz<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo de um livro \u00e9 uma esp\u00e9cie de primeira impress\u00e3o, de escolta entreaberta rumo \u00e0 descoberta das p\u00e1ginas que se percorrer\u00e3o. No caso d\u2019 <em>O Livro dos Homens sem Luz<\/em> associei-o, inopinadamente, \u00e0 escurid\u00e3o ou penumbra. E tal poderia parecer linear. No entanto, deparei-me com um enredo complexo, pleno de dinamismo e intensidade, no qual o tempo discursivo n\u00e3o obedece ao tempo cronol\u00f3gico, e com uma prosa repleta de recursos estil\u00edsticos: h\u00e1 quatro hist\u00f3rias distintas cujas personagens s\u00e3o \u00abdocumentadas\u00bb atrav\u00e9s da escrita oriunda de uma fus\u00e3o de personagens-narradores. Enquanto uns descrevem, outros s\u00e3o descritos.<br \/>\nA radicalidade e a tens\u00e3o das viv\u00eancias das personagens &#8211; David, Daniel, Helena, Joseph, Roy, Burke, Magda, Nina, Philip -, concede-lhes o direito de apari\u00e7\u00e3o nos diversos contos, desde os <em>Di\u00e1rios de Londres<\/em>, a <em>Soterrado<\/em>s, a <em>Ins\u00f3nia<\/em> at\u00e9 <em>Brigthon<\/em>. Tal como uma pe\u00e7a de filigrama isenta de ouro, tecida com o mais puro e negro metal.<br \/>\nSente-se na escrita o estado sofredor do solit\u00e1rio submergido numa escurid\u00e3o plural. Solid\u00e3o f\u00edsica derivada da aus\u00eancia (inicialmente, a de David) ou impossibilidade for\u00e7ada de contacto com os outros (por exemplo, a de Helena e de Joseph); solid\u00e3o como condena\u00e7\u00e3o (Joseph no hospital psiqui\u00e1trico) ou auto-imposi\u00e7\u00e3o (a de David e a de Philip Mackay). Ansiada ou indesejada, a solid\u00e3o surge como motor de redescoberta: do interior para o interior (personagem) e, num movimento inverso, do exterior para o interior (do leitor para a personagem).<br \/>\nA solid\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de despojamento, como no caso de David &#8211; um funcion\u00e1rio \u00abfantasma\u00bb &#8211; que \u00abN\u00e3o possu\u00eda casa pr\u00f3pria ou emprego fixo, amigos ou conhecidos (&#8230;), conforto financeiro ou qualquer perspectiva de futuro\u00bb e que vive a vida dos outros: primeiro, atrav\u00e9s da \u00abjanela indiscreta\u00bb da sua sala, num acto de voyeurismo assaz hitchcockiano; depois, pela ocupa\u00e7\u00e3o que acaba por exercer, sem a qual o livro de Jo\u00e3o Tordo jamais haveria sa\u00eddo da escurid\u00e3o: urde di\u00e1rios das vidas dos outros, como se da sua vida se tratasse. Um vendedor n\u00e3o apenas de passados, como F\u00e9lix Ventura no romance hom\u00f3nimo de Jos\u00e9 Eduardo Agualusa, mas um vendedor de exist\u00eancias presentes e futuras.<br \/>\n\u00c9 muito interessante captar a empatia silenciosa que David experiencia face ao estudante franzino, um dos seus vizinhos e objecto de culto da sua curiosidade desmesurada, mais tarde apresentado enquanto \u00abarrumador de livros\u00bb. Tamb\u00e9m ele padece de uma solid\u00e3o e de ins\u00f3nias incur\u00e1veis. E sente-se que \u00abmesmo na mis\u00e9ria existe uma esp\u00e9cie de partilha.\u00bb<br \/>\nDe certo modo, o solit\u00e1rio renuncia \u00e0 sua pr\u00f3pria vida existencializando-se num misto de \u00abesquecimento f\u00edsico, separa\u00e7\u00e3o da carne dos ossos\u00bb.<br \/>\nE o relato do fechamento ao mundo de Joseph e de Helena, enclausurados num abrigo subterr\u00e2neo devido ao bombardeamento ocorrido em setembro de 1940, \u00e9 violento e pleno de suspense.<br \/>\nNo interior da \u00abcaverna\u00bb assiste-se a uma metamorfose das personagens: Helena, outrora fr\u00e1gil e assustadi\u00e7a torna-se l\u00facida e guerreira; Joseph, outrora padeiro orgulhoso da qualidade da manufactura do seu produto, um ser rastejante e imundo. A degrada\u00e7\u00e3o, f\u00edsica e psicol\u00f3gica, progressiva de Joseph \u00e9 exemplarmente (d)escrita por Jo\u00e3o Tordo. Enquanto Helena flui da esperan\u00e7a ao des\u00e2nimo, do des\u00e2nimo ao desespero, do desespero \u00e0 lucidez; Joseph torna-se um violador quer de princ\u00edpios morais que o destituem de perceber e discriminar o bem do mal; quer f\u00edsico, dado que viola reiterada e selvaticamente a esposa, Helena. An\u00e1logo ao louco de Gogol que n\u00e3o ren\u00fancia \u00e0 vida, mas \u00e0 raz\u00e3o, alimenta-se de fezes, emite ru\u00eddos, chora e esbraceja at\u00e9 ficar ensanguentado. As personagens da hist\u00f3ria esperam ser resgatadas. E esperam por um <em>Godot<\/em> que insiste em n\u00e3o aparecer.<br \/>\nO sonho assume um papel fundamental na obra.\u00a0David sonhava com a realidade: com o que via \u00e0 janela, com a projec\u00e7\u00e3o das vidas que perseguia; Joseph tendia a fazer desparecer a realidade para sonhar com reminisc\u00eancias passadas. Em ambos o sonho \u00e9 reconfortante e fugaz. Fuga da mis\u00e9ria ora interior (personagem), ora exterior (segunda Guerra Mundial),o sonho \u00e9 simultaneamente invasor e invadido: sem pedir licen\u00e7a penetra nas personagens reconfortando-as com a presen\u00e7a do amor e da generosidade desaparecidas; mas, paradoxalmente, \u00e9 sempre convocado por elas.<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 por acaso que a amada de David, no primeiro encontro, na biblioteca, lhe pede o <em>Fedro<\/em> de Plat\u00e3o, obra onde se discute, entre outras problem\u00e1ticas, a paix\u00e3o guiada pela \u00abintemperan\u00e7a\u00bb e o \u00abamor verdadeiro\u00bb.<br \/>\nE eis que sou surpreendida com o ressurgir de Joseph em <em>Brigthon<\/em>, paciente com o caso mais enigm\u00e1tico do hospital, dado que havia perdido a verticalidade e tinha avers\u00e3o \u00e0 luz. A tortura a que se assiste, aquando da aplica\u00e7\u00e3o do \u00abaparelho de ajuste vertical\u00bb pelo Dr. Burke, \u00e9 dram\u00e1tica. E a fuga de Joseph representar\u00e1 simbolicamente um vislumbre de ilumina\u00e7\u00e3o: a resist\u00eancia em prol de uma morte digna, admitindo que existe uma hierarquia \u00e9tica no processo de nadifica\u00e7\u00e3o ou supress\u00e3o de ser.<br \/>\nAs sombras que vagueiam na escurid\u00e3o s\u00e3o as companheiras fantasmag\u00f3ricas que cada personagem encerra. No caso de Daniel, por exemplo, transformaram-no \u00abnum resto de algu\u00e9m\u00bb.<br \/>\nE com esta narrativa, ou narrativas, em filigrana Jo\u00e3o Tordo proporcionou-me o acesso aos mais inquietantes e profundos estados vivenciais da exist\u00eancia humana: a solid\u00e3o, o medo, o sofrimento, o desespero, a morte, mas tamb\u00e9m o amor, a esperan\u00e7a e a generosidade extremas. E no cerne de cada personagem capta-se esta luta entre os contr\u00e1rios. \u00c9 que a Escurid\u00e3o pode muito bem ser ambivalente.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Elsa Cerqueira<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jo\u00e3otordo.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-673 aligncenter\" alt=\"jo\u00e3otordo\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jo\u00e3otordo-192x300.jpg\" width=\"192\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jo\u00e3otordo-192x300.jpg 192w, http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jo\u00e3otordo-657x1024.jpg 657w, http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/jo\u00e3otordo.jpg 1572w\" sizes=\"(max-width: 192px) 100vw, 192px\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\">\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Editora: D. 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