{"id":1103,"date":"2014-06-28T23:18:27","date_gmt":"2014-06-28T23:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=1103"},"modified":"2014-08-19T18:25:49","modified_gmt":"2014-08-19T18:25:49","slug":"os-esquecidos-pedro-neves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/polegarmente.me\/?p=1103","title":{"rendered":"Os Esquecidos, Pedro Neves"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1107\" alt=\"Os esquecidos1\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos1-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos1-300x168.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos1.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nFicha T\u00e9cnica<\/p>\n<p>Realiza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o: Pedro Neves<br \/>\nArgumento: Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Pinto, Pedro Neves<br \/>\nImagem: Pedro Neves<br \/>\nMontagem: Carlos Ruiz, Pedro Neves<br \/>\nMistura de Som: Marco Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nGrafismo: Pedro Pimentel<br \/>\nPortugal, 2009, 62&#8242;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No document\u00e1rio <em>Os Esquecidos<\/em>, Pedro Neves filmou a sobreviv\u00eancia desumana da natureza humana ou o absurdo da exist\u00eancia.<br \/>\nOs barracos habitados por estas gentes s\u00e3o aut\u00eanticos c\u00e1rceres. Candidinha dorme de luvas e xaile. Agasalhada da cabe\u00e7a aos p\u00e9s tenta iludir o frio que se instala no casebre, lhe contagia o corpo e lhe mina os ossos.<br \/>\nRamiro foi obrigado a desistir do trabalho para n\u00e3o desistir da esposa, totalmente dependente dos seus cuidados. Dentro de uma bacia, sentada numa cadeira, d\u00e1-lhe banho com a \u00e1gua que vai aquecendo no fog\u00e3o. Lava-a \u201c\u00e0 c\u00e3o\u201d, \u00e9 a sua express\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cineavante_osesquecidos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1110\" alt=\"cineavante_osesquecidos\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cineavante_osesquecidos-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cineavante_osesquecidos-300x168.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cineavante_osesquecidos.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre, filho de Helena e Albino, \u00e9 um adolescente para quem a vida se encarregou de reduzir os sonhos, num futuro long\u00ednquo, a \u201cuma casinha, uma fam\u00edlia sua, um carro\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1106\" alt=\"Os esquecidos3\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos3-300x162.jpg\" width=\"300\" height=\"162\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos3-300x162.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos3.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Lu\u00eds \u00e9 um destro\u00e7o humano. Sente-se \u201cum c\u00e3o vadio\u201d. N\u00e3o se lembra de n\u00e3o dormir na rua. Sem amigos e com uma fam\u00edlia que n\u00e3o quer saber dele, tem por companhia o frio, o vento e a chuva. Reconforta-o a est\u00e1tua da nossa senhora de F\u00e1tima.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1105\" alt=\"Os esquecidos\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos-300x169.jpg\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos-300x169.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Os-esquecidos.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os direitos consignados na lei suprema do pa\u00eds[1] ignoram as condi\u00e7\u00f5es miserabilistas destas exist\u00eancias. \u00c9 como se por cada direito declarado na constitui\u00e7\u00e3o portuguesa houvesse um n\u00e3o direito oculto; por cada princ\u00edpio te\u00f3rico, uma outra realidade existencial que se encarrega de o negar.<br \/>\nExclu\u00eddos dos direitos \u201ca um ambiente de vida humano\u201d, \u201ca uma habita\u00e7\u00e3o de dimens\u00e3o adequada, em condi\u00e7\u00f5es de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar\u201d, \u201c\u00e0 educa\u00e7\u00e3o\u201d; privados do bem-estar mais elementar do ponto de vista bio-socio-econ\u00f3mico, estas pessoas transportam nas rugas as desilus\u00f5es da injusti\u00e7a social que, como se sabe, t\u00eam uma raiz pol\u00edtica.<br \/>\nNo universo ficcionado por Georges Orwell, 1984, Winston trabalhava no minist\u00e9rio da verdade laborando na mentira. Apagar o passado, reescrevendo-o para o conformar \u00e0 realidade presente. No caso portugu\u00eas, a realidade presente nega a (lei) escrita. Em ambos os casos, h\u00e1 um desajustamento entre o ser e o dever ser.<br \/>\nTal como o partido omnipotente e omnipresente da Oce\u00e2nia rejeita os dados emp\u00edricos, tamb\u00e9m a constitui\u00e7\u00e3o portuguesa e, com ela, os agentes pol\u00edticos permanecem indiferentes \u00e0 realidade destas pessoas.<br \/>\nCreio que, tal como h\u00e1 v\u00e1rios tipos de mem\u00f3ria, h\u00e1 v\u00e1rios tipos de esquecimento. Do esquecimento involunt\u00e1rio, decorrente de patologias cl\u00ednicas, como a amn\u00e9sia, ao esquecimento intencional, fruto de interesses pol\u00edticos, h\u00e1 diferen\u00e7as de g\u00e9nero e de natureza. Mas ambos s\u00e3o patol\u00f3gicos. Desordens neuro-psicol\u00f3gicas num caso; patologias pol\u00edtico-morais no outro. Percebe-se que nas desordens do segundo tipo, o esquecimento n\u00e3o \u00e9, como bem referiu Nietzsche, passividade, \u00e9 oculta\u00e7\u00e3o deliberada.<br \/>\nO document\u00e1rio, ancorado nas mem\u00f3rias destas gentes an\u00f3nimas, ao desocultar o presente segundo a estrat\u00e9gia testemunhal recoloca-o, reinscreve-o, enquanto passado, na hist\u00f3ria de portugal do s\u00e9c. XXI.<br \/>\nE o filme tem o m\u00e9rito de conservar a narrativa (a mem\u00f3ria) destes sobreviventes da desesperan\u00e7a, possibilitando o reconhecimento da \u201cmis\u00e9ria, da sujidade, da indiferen\u00e7a\u201d[2] humanas.<br \/>\nPedro Neves sente que da oculta\u00e7\u00e3o destas exist\u00eancias poder\u00e1 advir um segundo esquecimento relativamente ao esquecimento primeiro. Sabe que os relatos destas vidas, rompendo com o sil\u00eancio da mem\u00f3ria, integram a mem\u00f3ria colectiva. Convoca as mem\u00f3rias passadas, nas vidas presentificadas, tentando tornar intelig\u00edvel quando e como opera a patologia social do abandono. E f\u00e1-lo por imperativos \u00e9ticos porque a capta\u00e7\u00e3o do (que est\u00e1) mal \u00e9 condi\u00e7\u00e3o primeira para a reflex\u00e3o e para o debate esclarecidos e fecundos, apenas, na condi\u00e7\u00e3o de lhes suceder uma praxis que o combata e o aniquile.<br \/>\nDa\u00ed que s\u00f3 tenha sentido preservar a mem\u00f3ria colectiva se ela for cr\u00edtica e tiver subjacente uma vertente moral.<br \/>\nTalvez se devesse reescrever a constitui\u00e7\u00e3o portuguesa, \u201cvaporizar\u201d os pol\u00edticos porque mais do que conservar a vida destas pessoas importa recuperar a sua humanidade perdida e isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com a reinven\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds.<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">_____________________________________________<\/span><\/p>\n<p>[1] E um pa\u00eds com esta natureza s\u00f3 pode ter o nome escrito com letra min\u00fascula.<br \/>\n[2] Georges Orwell, 1984 (1949). P\u00fablico, Colec\u00e7\u00e3o Mil Folhas, Reedi\u00e7\u00e3o de 2002, p\u00e1g. 83.<\/p>\n<p>_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\">Elsa Cerqueira<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/8yeMFsbHzJc\" height=\"315\" width=\"520\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficha T\u00e9cnica Realiza\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o: Pedro Neves Argumento: Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Pinto, Pedro Neves Imagem: Pedro Neves Montagem: Carlos Ruiz, Pedro Neves Mistura de Som: Marco Concei\u00e7\u00e3o Grafismo: Pedro Pimentel Portugal, 2009, 62&#8242; &nbsp; No document\u00e1rio Os Esquecidos, Pedro Neves filmou a sobreviv\u00eancia desumana da natureza humana ou o absurdo da exist\u00eancia. 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