{"id":1448,"date":"2016-06-15T22:26:14","date_gmt":"2016-06-15T22:26:14","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=1448"},"modified":"2016-06-16T11:16:37","modified_gmt":"2016-06-16T11:16:37","slug":"paul-marcelo-felix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/polegarmente.me\/?p=1448","title":{"rendered":"Paul, Marcelo Felix"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/1-Foto-do-Filme-Paul.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-1449\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/1-Foto-do-Filme-Paul-300x126.jpg\" alt=\"1 Foto do Filme Paul\" width=\"600\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/1-Foto-do-Filme-Paul-300x126.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/1-Foto-do-Filme-Paul-1024x431.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/1-Foto-do-Filme-Paul.jpg 1392w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica:<\/p>\n<p>Realiza\u00e7\u00e3o e argumento: Marcelo Felix<br \/>\nElenco: Alice Medeiros (Tradutora\/Legendadora), R\u00f3mulo Ferreira (Oper\u00e1rio), Crista Alfaiate ( Daiva), Mafalda Lencastre (Kerttu),<br \/>\nDimitris Mostrous (Liocha)<br \/>\nM\u00fasica: S\u00e1ndor Veress<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Isabel Machado Joana Ferreira<br \/>\nPortugal, C.R.I.M., 2016, 71\u2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre esta obra f\u00edlmica registarei algumas pistas, com a certeza de que as aprofundarei quando o tempo o consentir.<br \/>\nEstamos perante um filme dentro de filmes. Uma legendadora ou tradutora (Alice Medeiros) num filme cuja l\u00edngua \u00e9 o Est\u00f3nio e, portanto, a carecer de legendagem. Legendagem sobre legendagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/teaserbox_2461410380.png\"><img loading=\"lazy\" class=\"  wp-image-1452 aligncenter\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/teaserbox_2461410380-300x125.png\" alt=\"teaserbox_2461410380\" width=\"601\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/teaserbox_2461410380-300x125.png 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/teaserbox_2461410380.png 900w\" sizes=\"(max-width: 601px) 100vw, 601px\" \/><\/a><br \/>\nA exist\u00eancia ficcionada do oper\u00e1rio fabril, interpretado por R\u00f3mulo Ferreira, do filme em processo de legendagem parece cruzar-se com a exist\u00eancia real da tradutora. E \u00e0 medida que o filme avan\u00e7a, o espectador sente que realidade da legendadora parece ser o real ficcionado ou a fic\u00e7\u00e3o realizada.<br \/>\nE a narrativa, ou melhor, a sua aus\u00eancia, porque a narrativa linear, sequenciada, l\u00f3gica, n\u00e3o existe, adensa o mist\u00e9rio que rodeia esta(s) hist\u00f3ria(s).<br \/>\nNeste sentido, este filme \u00e9 inclassific\u00e1vel, \u201cincatalog\u00e1vel\u201d. Ali\u00e1s, o g\u00e9nero \u00e9 sempre uma camisa-de-for\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 document\u00e1rio e realidades puras, como n\u00e3o existem fic\u00e7\u00f5es desancoradas da realidade.<br \/>\nA estranheza \u00e9 o sentimento que antecipa a inquieta\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 dois tipos de inquieta\u00e7\u00e3o: a inquieta\u00e7\u00e3o-interroga\u00e7\u00e3o, ou seja, o desassossego cr\u00edtico, um convite \u00e0 interioridade; e a inquieta\u00e7\u00e3o-rejei\u00e7\u00e3o, quer dizer, a preocupa\u00e7\u00e3o fossilizada no preconceito. Enquanto a primeira funda a atitude filos\u00f3fica, a segunda alicer\u00e7a-se na atitude dogm\u00e1tica, que exclui o diferente. Acredito que esta \u00faltima ser\u00e1 tanto maior quanto a sofreguid\u00e3o &#8211; entenda-se, habitua\u00e7\u00e3o &#8211; do espectador em assimilar \u201cfast film\u201d, quer dizer, em consumir filmes de forma a-cr\u00edtica.<br \/>\nA cena inaugural de \u201cPaul\u201d, a do beijo, \u00e9 de uma beleza desconcertante. O contraste crom\u00e1tico (preto e branco) tem um duplo papel: por um lado, transporta o espectador at\u00e9 \u00e0 genealogia do Cinema; por outro, intensifica o dramatismo subjacente ao estado psicol\u00f3gico das personagens. A aus\u00eancia de legendagem\/tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 inquietante. E se o beijo for intraduz\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-1450\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o-300x126.jpg\" alt=\"12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o\" width=\"600\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o-300x126.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o-1024x429.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/12909476_10154065743277296_2199508718442679663_o.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><br \/>\nE da estranheza-inquieta\u00e7\u00e3o, desemboca-se no deslumbramento porque o filme de Marcelo Felix \u00e9 um elogio \u00e0 lentid\u00e3o \u2013 como se o tempo estivesse fora do tempo -, aos pequenos gestos (dos olhares, aos p\u00e9s que dialogam entre si) e aos pormenores (dos olhos cor de esperan\u00e7a da tradutora \u00e0 \u00e1gua verdejante, do chap\u00e9u que rodopia, do pulsar das folhas ou o som dos cabelos ao vento no paul), como se de pinturas impressionistas se tratassem mescladas por uma narrativa fragmentada ou estilha\u00e7ada, envolvida numa ambi\u00eancia de surrealidade. E na cria\u00e7\u00e3o desta atmosfera o realizador presenteia-se, ou presenteia-nos, com o jogo da intermit\u00eancia ou da oscila\u00e7\u00e3o entre a aus\u00eancia-presen\u00e7a e a co-presen\u00e7a. Dos sons. Do som-ru\u00eddo (das m\u00e1quinas na f\u00e1brica) ao som-sussurro (dos segredos no\/do paul). Dos sil\u00eancios. Dos sons nos sil\u00eancios. Dos signos lingu\u00edsticos intelig\u00edveis. Das express\u00f5es verbais indiz\u00edveis. Da luminosidade. Da negritude. Da negritude luminosa.<br \/>\nEis que me deparo, na noite ou nas trevas, com o rosto do violoncelista. Rosto encantado\/iluminado pela m\u00fasica, ou como se lhe refere Schopenhauer, pela mais imaterial de todas as artes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-1453\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o-300x125.jpg\" alt=\"13441512_1213034748730648_2003870984_o\" width=\"599\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o-300x125.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o-1024x426.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o-960x400.jpg 960w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13441512_1213034748730648_2003870984_o.jpg 1399w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Intermit\u00eancias das imagens cinematogr\u00e1ficas (verbais, ic\u00f3nicas, crom\u00e1ticas, sonoras, mas tamb\u00e9m olfactivas&#8230;) que oscilam entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel corporificando a condi\u00e7\u00e3o paradoxal do humano. Deambula\u00e7\u00e3o entre o oper\u00e1rio-vidreiro e o m\u00fasico, entre o des-sentido e o sentir sentido. Ontologia da intermit\u00eancia.<br \/>\nOuve-se no filme dentro do filme &#8220;Eu n\u00e3o fa\u00e7o tudo sozinha. Dependemos de tanta coisa. Eu s\u00f3 posso avan\u00e7ar at\u00e9 certo ponto.\u201d Poder\u00e1 a tradutora de agora ser o oper\u00e1rio de outrora? Imagens-movimentos que (os) aproximam os tempos das imagens. Poder\u00e1 o aprisionado de outrora ser libertado agora?<br \/>\n\u00c9 a floresta que se prolonga no paul ou o paul que se espraia na floresta e onde quer a legendadora, quer o oper\u00e1rio se \u201ccruzam\u201d e, simultaneamente, se libertam, numa esp\u00e9cie de corrida ritmada ou musicada pela paix\u00e3o?<br \/>\nCom este filme Marcelo Felix subverteu a m\u00e1xima de Wittgenstein, segundo a qual \u201cOs limites da minha linguagem s\u00e3o os limites do meu mundo\u201d porque, doravante, n\u00e3o s\u00e3o as palavras que potenciam as coisas, os seres, mas as imagens. Imagens que estimulam o som mesmo quando ele foi suprimido. Sim, porque no paul ouvi o bel\u00edssimo solo \u201cmudo\u201d de violoncelo. Talvez o sil\u00eancio seja o \u201ch\u00famus\u201d da m\u00fasica. E, por momentos, sinto a partitura 4\u201933\u201f de John Cage.<\/p>\n<div id=\"attachment_1451\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n-Bastidores.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1451\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-1451\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n-Bastidores-300x225.jpg\" alt=\"13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n Bastidores\" width=\"529\" height=\"397\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n-Bastidores-300x225.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n-Bastidores-240x180.jpg 240w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/13343153_1102913536436465_2904299894363579725_n-Bastidores.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 529px) 100vw, 529px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1451\" class=\"wp-caption-text\">Foto de rodagem<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a \u201cArca do \u00c9den\u201d que Marcelo Felix \u00e9 o realizador-explorador das imagens inaugurais ou primordiais. \u201cImagens e sons em estado de espera e de reserva\u201d[1], como dizia Robert Bresson. \u00c0 espera de serem criados e (re)descobertos. Porque criar \u00e9 estreitar. \u201c\u00c9 estreitar entre pessoas e coisas que existem, e tal como existem, novas rela\u00e7\u00f5es.\u201d[2]<br \/>\nQuando o Cinema se reinventa e, com ele, se redefine a natureza do espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Elsa Cerqueira<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: left;\">_____________________________________________<\/p>\n<p>[1] Robert Bresson, Notas Sobre o Cinemat\u00f3grafo (1975), Porto, Porto Editora, 2000, p\u00e1g. 63.<br \/>\n[2] Op. Cit., p\u00e1g. 25<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ficha t\u00e9cnica: Realiza\u00e7\u00e3o e argumento: Marcelo Felix Elenco: Alice Medeiros (Tradutora\/Legendadora), R\u00f3mulo Ferreira (Oper\u00e1rio), Crista Alfaiate ( Daiva), Mafalda Lencastre (Kerttu), Dimitris Mostrous (Liocha) M\u00fasica: S\u00e1ndor Veress Produ\u00e7\u00e3o: Isabel Machado Joana Ferreira Portugal, C.R.I.M., 2016, 71\u2019 &nbsp; Sobre esta obra f\u00edlmica registarei algumas pistas, com a certeza de que as aprofundarei quando o tempo o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1448"}],"collection":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1448"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1448\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1467,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1448\/revisions\/1467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}