{"id":462,"date":"2014-02-19T22:40:06","date_gmt":"2014-02-19T22:40:06","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=462"},"modified":"2014-04-10T22:18:45","modified_gmt":"2014-04-10T22:18:45","slug":"a-cosmogonia-onirica-de-karin-somers","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/polegarmente.me\/?p=462","title":{"rendered":"A cosmogonia on\u00edrica de Karin Somers"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_381\" style=\"width: 204px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-efeito-dos-dias.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-381\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-381 \" title=\"O efeito dos dias\" alt=\"O efeito dos dias\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-efeito-dos-dias-194x300.jpg\" width=\"194\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-efeito-dos-dias-194x300.jpg 194w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-efeito-dos-dias-663x1024.jpg 663w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-efeito-dos-dias.jpg 1300w\" sizes=\"(max-width: 194px) 100vw, 194px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-381\" class=\"wp-caption-text\">O efeito dos dias<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Genealogia do acto de criar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo criativo de Karin Somers \u00e9 herdeiro de duas interioridades: uma que remete f\u00edsica e espacialmente para o processo de modelagem em gr\u00eas, atrav\u00e9s do qual a obra germina literalmente de dentro para fora, com a mesma proximidade, afei\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7o\u00a0e amor com que se gera um filho. Sim, a obra \u00e9 a filha eterna da artista, revelando o elo inquebr\u00e1vel com a sua progenitora. A outra interioridade, a da artista, \u00e9 repleta de mist\u00e9rios semi-desocultados, de imagens suspensas, de emo\u00e7\u00f5es fugidias e de sonhos imprecisos. Num movimento de converg\u00eancia estas interioridades encontram-se, surgindo reificadas ora na arquitectura singular das formas, por exemplo, nas obsess\u00f5es pelos detalhes corp\u00f3reos &#8211; os nichos ou inv\u00f3lucros &#8211; prolongamentos epid\u00e9rmicos do ser do homem no mundo \u2013, ora nos incorp\u00f3reos t\u00edtulos: aut\u00eanticos espelhos da alma da criadora.<br \/>\nA cria\u00e7\u00e3o \u00e9, assim, express\u00e3o e manifesta\u00e7\u00e3o da dial\u00e9ctica entre os estados de ensimesmamento e exsimesmamento da artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Olhar C\u00f3smico<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_372\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-372\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-372 \" title=\"P\u00e1ssaro do tempo\" alt=\"P\u00e1ssaro do tempo\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo-300x297.jpg\" width=\"240\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo-300x297.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo-150x150.jpg 150w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo-1024x1016.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/P\u00e1ssaro-do-tempo.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-372\" class=\"wp-caption-text\">P\u00e1ssaro do tempo<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas cria\u00e7\u00f5es escult\u00f3ricas de Karin Somers \u00e9 poss\u00edvel detectar alguns elementos invariantes: os rostos humanos ou semi-humanos, as asas e a presen\u00e7a de animais n\u00e3o humanos, como o p\u00e1ssaro, a lagarta, a borboleta, etc.<br \/>\nO rosto surge sempre como a morada do Outro, mas tamb\u00e9m enquanto ve\u00edculo comunicador, transporta-nos ao Outro. Numa \u00e9poca pr\u00e9-lingu\u00edstica \u00e9 o olhar, quer dizer a vis\u00e3o, que nos permite comunicar. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o intersubjectiva, como evidenciou L\u00e9vinas. \u00c9 revelador da alteridade, mas tamb\u00e9m da mesmidade.<br \/>\nSe observarmos estes rostos que teimam em ganhar vida, constata-se que os seus olhos est\u00e3o frequentemente cerrados. Prefigurar\u00e3o os olhos da Alma? Fechados ante os dados captados sensorialmente, fazendo relembrar a teoria plat\u00f3nica do corpo como c\u00e1rcere da alma? Fechados mas despertos\/abertos ante a sensibilidade, fonte inesgot\u00e1vel da cria\u00e7\u00e3o, do sentir e do existir est\u00e9ticos?<br \/>\nConfesso que persisto na tarefa incessante de desoculta\u00e7\u00e3o do(s) seu(s) sentido(s).<br \/>\nA par de uma vis\u00e3o f\u00edsica, sensorial, h\u00e1 outra muito distinta, mais profunda, que se centra e sente nas profundezas dos seres. Ser\u00e1 que o fechamento\/abertura destes olhos, oposto ao fechamento\/clausura, constituir\u00e1 a (nossa) condi\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica quando somos confrontados com o Outro, seja concebido enquanto animal humano ou animal n\u00e3o humano?<\/p>\n<div id=\"attachment_371\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Deriva.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-371\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-371 \" alt=\"Deriva\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Deriva-300x282.jpg\" width=\"240\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Deriva-300x282.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Deriva-1024x962.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Deriva.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-371\" class=\"wp-caption-text\">Deriva<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_378\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Uma-vida-tranquila.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-378\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-378 \" title=\"Uma vida tranquila\" alt=\"Uma vida tranquila\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Uma-vida-tranquila-300x278.jpg\" width=\"240\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Uma-vida-tranquila-300x278.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Uma-vida-tranquila-1024x950.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Uma-vida-tranquila.jpg 1400w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-378\" class=\"wp-caption-text\">Uma vida tranquila<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se intentasse elaborar uma tipologia do olhar, diria que, tal como os rostos, os olhares s\u00e3o m\u00faltiplos: olhar solipsista, olhar descobridor, olhar cogitativo, olhar totalit\u00e1rio, olhar submisso, \u2026 Mas o olhar que perpassa nestes rostos, perten\u00e7a de todos e propriedade de ningu\u00e9m, \u00e9 aquele de d\u00e1diva ao outro: o olhar relacional. Um olhar simultaneamente de abertura ao Outro, acolhimento e recolhimento. Esta uni\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 fus\u00e3o ou aniquila\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d do outro, \u00e9 comunh\u00e3o com sentido e consentida. Mas o que v\u00ea pode simultaneamente ser visto. O que olha, artista ou contemplador, transmuta-se em olhado pelas obras. \u00c9 a esta rela\u00e7\u00e3o fascinante de circularidade\/reciprocidade pura a que as obras convidam.<br \/>\nUm rosto que nos incita a um di\u00e1logo silencioso e nos transmite uma ambival\u00eancia de mensagens\/estados: da quietude, ao desespero, da esperan\u00e7a \u2013 mero desejo esvoa\u00e7ante \u2013 \u00e0 desesperan\u00e7a.<br \/>\nO curioso \u00e9 que os animais n\u00e3o humanos, em estreita comunh\u00e3o com os animais que todos os humanos s\u00e3o, t\u00eam a virtualidade de os transportar (transportando tamb\u00e9m o pr\u00f3prio fruidor) pelos v\u00e1rios elementos primordiais: o ar, a terra, a \u00e1gua. E o fogo? Onde estar\u00e1? Talvez no poder desmesurado que estas esculturas \u2013 hierofanias do on\u00edrico e do real &#8211; possuem porque nos reenviam para uma viagem no tempo: o tempo da comunh\u00e3o c\u00f3smica, da regress\u00e3o germinativa, o tempo que nega o pr\u00f3prio tempo. Talvez na alma exposta ao sol. Ou no p\u00e1ssaro do tempo. Ou no sonho concebido enquanto murm\u00fario incessante.<br \/>\nRetive a express\u00e3o \u201cbicho-homem\u201d proferida, pela Karin Somers &#8211; numa visita que fez \u00e0 sua exposi\u00e7\u00e3o, em 2008, no Museu Amadeo de Souza-Cardoso \u2013, aos meus alunos do Curso de Artes Visuais, para exprimir este sentimento de partilha desej\u00e1vel e, cada vez mais irrealiz\u00e1vel entre dois universos, ordinariamente n\u00e3o coincidentes. Considero-a deliciosa porque se distancia da desumaniza\u00e7\u00e3o, dado que n\u00e3o se trata nem de uma animaliza\u00e7\u00e3o do humano, nem de uma humaniza\u00e7\u00e3o progressiva do animal n\u00e3o humano, mas de uma comunh\u00e3o numa temporalidade sonhada. Enquadrada, portanto, numa perspectiva profundamente anti-especista, do ponto de vista \u00e9tico.<br \/>\nEmergindo do cerne da condi\u00e7\u00e3o humana, as inquieta\u00e7\u00f5es somersianas presentes nas esculturas como o tempo (protenso e retrotenso), a quietude, o sonho, a velhice, s\u00e3o radical e genuinamente filos\u00f3ficas. Com efeito, as interroga\u00e7\u00f5es kantianas: o que \u00e9 o homem? o que devo fazer? o que posso saber? o que me \u00e9 permitido esperar? surgem tematizadas. A estas, acrescentaria uma outra: de onde vem o homem?, inaugurando o que se poderia designar como \u201ccosmogonia on\u00edrica\u201d. Uma narrativa primordial que adv\u00e9m de uma necessidade visceral de transfigurar o real:<\/p>\n<div id=\"attachment_375\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Destino-partilhado.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-375\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-375 \" title=\"Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 origem do mundo\" alt=\"Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 origem do mundo\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Destino-partilhado-300x255.jpg\" width=\"240\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Destino-partilhado-300x255.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Destino-partilhado.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-375\" class=\"wp-caption-text\">Peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 origem do mundo<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Primeiro que tudo houve a Comunh\u00e3o das esp\u00e9cies, dos seres animados e inanimados.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Nela reinava a cumplicidade dos sil\u00eancios<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>O murm\u00fario dos afectos<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>O eu era o N\u00f3s<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>E n\u00f3s eramos \u00e1gua, terra, fogo e ar.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em style=\"line-height: 1.5em;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_374\" style=\"width: 227px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-aconchego-dos-outros.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-374\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-374 \" title=\"O aconchego dos outros\" alt=\"O aconchego dos outros\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-aconchego-dos-outros-271x300.jpg\" width=\"217\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-aconchego-dos-outros-271x300.jpg 271w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-aconchego-dos-outros-926x1024.jpg 926w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/O-aconchego-dos-outros.jpg 1973w\" sizes=\"(max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-374\" class=\"wp-caption-text\">O aconchego dos outros<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um misto de proximidade e distanciamento na rela\u00e7\u00e3o com os rostos representados porque esta cosmogonia nunca se tece ao n\u00edvel de uma presenta\u00e7\u00e3o (objectiva), mas de uma representa\u00e7\u00e3o, fortemente impregnada de afectividade(s). Respira-se a ambi\u00eancia, captam-se os detalhes, amorosamente pousados (a inclina\u00e7\u00e3o da face, as ra\u00edzes \u2013 elo da comunh\u00e3o tel\u00farica; a borboleta na boca que persiste em voar; o homem\/p\u00e1ssaro que habita em cada um de n\u00f3s) e deparamo-nos, paulatinamente, com uma viagem \u00e0 genealogia das esp\u00e9cies.<br \/>\nA magia destas obras \u00e9 operarem em n\u00f3s, meros espectadores, o sentimento de lhes pertencermos: sentimos cada fenda como ruga nossa; cada olhar contemplativo como medita\u00e7\u00e3o pessoal; cada barco como viagem realizada; cada asa como ascens\u00e3o ansiada; cada p\u00e1ssaro como metamorfose do eu. Assim, cada elemento, cada pormenor escultural, desvela a exist\u00eancia de uma Metaf\u00edsica do Sentir, proped\u00eautica a uma ontologia do homem, dos seres e do mundo. Finda a experi\u00eancia est\u00e9tica da frui\u00e7\u00e3o, resta-nos uma profunda saudade por um estado de completude, contrastando com a car\u00eancia presentificada.<br \/>\nMas esta consci\u00eancia saudosa, como evidenciou, fenomenologicamente, Joaquim de Carvalho, surge da ruptura entre duas temporalidades: a que se viveu e a que se vive.<br \/>\nO chamamento que opera em n\u00f3s esta cosmogonia on\u00edrica \u00e9 t\u00e3o intenso e avassalador que, por eternos instantes, acreditamos nessa vida de comunh\u00e3o c\u00f3smica, ancestral e cenicamente evocada. \u00c9 o sentimento nost\u00e1lgico do \u201csentir-se eternamente longe de si\u201d, dir\u00e1 Cioran.<br \/>\n\u00c9 a atitude do desejo, da vontade, da consci\u00eancia irracional saudosa por um tempo n\u00e3o vivido, mas sentido. E a saudade deixa de ser do ponto de vista ontol\u00f3gico, exclusiva perten\u00e7a do animal humano: \u00e9 uma saudade universalmente sentida, recusando a atitude teor\u00e9tica como (sua) possibilidade.<br \/>\nAtente-se aos t\u00edtulos. Tamb\u00e9m eles s\u00e3o parte da teia de comunh\u00e3o simb\u00f3lico-afectiva que constitui este universo do sonho\/desejo, do sonho\/saudoso. S\u00e3o descendentes das obras, cuidadosa e carinhosamente pensados\/sentidos. Nas esculturas percebe-se uma harmonia entre a forma e o conte\u00fado, uma \u00edntima cumplicidade.<br \/>\nNo mundo da facticidade, a sucess\u00e3o temporal revela-se-nos de forma tir\u00e2nica; no universo on\u00edrico somersiano n\u00e3o h\u00e1 sucess\u00e3o: apenas comunh\u00e3o. A vis\u00e3o darwinista da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies jamais triunfaria. \u00c9 na regress\u00e3o, consubstanciada no <em>ser com<\/em>, que se objectiva o auge, a culmin\u00e2ncia do pulsar vital das esp\u00e9cies. Nela, descobrimos uma etiologia semi-humana, semi-animal. Descobrimo-nos como perten\u00e7a de todos, na quietude da d\u00e1diva ao outro, concebido enquanto ser igual a n\u00f3s. As obras narram essa genealogia dos animais humanos, dos animais n\u00e3o humanos e dos elementos (como a derme, concebida como um misto de manto protector e enraizamento\/distanciamento do mundo) que constituem o habitat afectivo dessa comunh\u00e3o ancestral.<\/p>\n<div id=\"attachment_383\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Sopro.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-383\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-383 \" alt=\"Sopro\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Sopro-300x287.jpg\" width=\"240\" height=\"230\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Sopro-300x287.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Sopro-1024x980.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Sopro.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-383\" class=\"wp-caption-text\">Sopro<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hodiernidade somos ref\u00e9ns da temporalidade, v\u00edtimas do fluir hist\u00f3rico. Somos \u201cseres-no-mundo\u201d, segundo Heidegger, e este revela-se o horizonte onde o homem se estatui como alvo f\u00e1cil da eros\u00e3o do vazio. Gastamos o tempo, desgastando-nos. Somos presas do ef\u00e9mero e predadores do banal. Da\u00ed, a necessidade do sonho. Sonho cat\u00e1rtico que nos expurga do que somos, emergindo como transpar\u00eancia desveladora dos seres que gostar\u00edamos ter ousado ser.<br \/>\nE as obras desta artista pl\u00e1stica t\u00eam o m\u00e9rito que a pr\u00f3pria filosofia n\u00e3o possui enredada em conceitos e em dicotomias v\u00e1rias como a eternidade-temporalidade, animalidade-humanidade, real-fic\u00e7\u00e3o: a de se instituirem como modelos de re-interpreta\u00e7\u00e3o e de transforma\u00e7\u00e3o do vivido, pelo imaginado ou simplesmente sonhado, enla\u00e7ando as referidas antinomias. \u00c9 que este sonho\/desejo tem o poder de recriar o mundo, reinventando-nos.<\/p>\n<div id=\"attachment_373\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-373\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-373 \" title=\"Viajante\" alt=\"Viajante\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante-298x300.jpg\" width=\"298\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante-298x300.jpg 298w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante-150x150.jpg 150w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante-1019x1024.jpg 1019w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Viajante.jpg 1632w\" sizes=\"(max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-373\" class=\"wp-caption-text\">Viajante<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">E este sossego\/desassossego de Karin Somers e das suas obras conduz-nos \u00e0 interpela\u00e7\u00e3o maior: aquela que convida o espectador\/contemplador a fruir as obras suspenso \u2013 tal como algumas esculturas \u2013 de pr\u00e9-conceitos (menoridades mentais) e de coordenadas espacio-temporais, numa atitude esteticamente desinteressada. \u00c9 a derradeira comunh\u00e3o: a da cumplicidade estabelecida com esta cosmogonia <em>in nihilo tempore<\/em> atrav\u00e9s da qual confluem os universos da cria\u00e7\u00e3o, da contempla\u00e7\u00e3o e da plenitude ontol\u00f3gica.<\/p>\n<div id=\"attachment_368\" style=\"width: 301px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/A-conquista-da-serenidade.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-368\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-368 \" title=\"A conquista da serenidade\" alt=\"A conquista da serenidade\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/A-conquista-da-serenidade-291x300.jpg\" width=\"291\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/A-conquista-da-serenidade-291x300.jpg 291w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/A-conquista-da-serenidade-994x1024.jpg 994w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/A-conquista-da-serenidade.jpg 1408w\" sizes=\"(max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-368\" class=\"wp-caption-text\">A conquista da serenidade<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bibliografia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levinas, Emmanuel (1994). \u201cLangage et Proximit\u00e9. In D\u00e9couvrant l\u2019existence avec Husserl et Heidegger, Paris: Vrin. (Original publicado em 1967).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carvalho, Joaquim (1998). Elementos Constitutivos da Consci\u00eancia Saudosa. Lisboa: Lisboa Editora. (Original publicado em 1952).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kant, Immanuel (1985). Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian. (Original publicado em 1781).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0(1986). Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pr\u00e1tica. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70. (Original publicado em 1788).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cioran, Emil (1997). Pr\u00e9cis de D\u00e9composition,. Paris: Gallimard. (Original publicado em 1949).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Heidegger, Martin (1989). El Ser y el Tiempo, M\u00e9xico: Buenos Aires, F. Cultura Economica. (Original publicado em 1927).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">___________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota Marginal<\/strong>: Artigo de Elsa Cerqueira publicado na Revista <em>CBN<\/em>, <em>Revista de Est\u00e9tica y Arte Contempor\u00e1ne<\/em>o, Spain, diciembre 2010,\u00a0<span style=\"line-height: 1.5em;\">n.\u00ba 2,\u00a0<\/span><span style=\"line-height: 1.5em;\">pp. 30-37.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genealogia do acto de criar O processo criativo de Karin Somers \u00e9 herdeiro de duas interioridades: uma que remete f\u00edsica e espacialmente para o processo de modelagem em gr\u00eas, atrav\u00e9s do qual a obra germina literalmente de dentro para fora, com a mesma proximidade, afei\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7o\u00a0e amor com que se gera um filho. Sim, a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/462"}],"collection":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=462"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/462\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":856,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/462\/revisions\/856"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}