{"id":606,"date":"2014-03-08T18:31:52","date_gmt":"2014-03-08T18:31:52","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=606"},"modified":"2014-03-11T18:54:01","modified_gmt":"2014-03-11T18:54:01","slug":"o-besta-celere-regina-sardoeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/polegarmente.me\/?p=606","title":{"rendered":"O Besta C\u00e9lere, Regina Sardoeira"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/O-Besta-C\u00e9lere.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-607\" alt=\"O Besta C\u00e9lere\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/O-Besta-C\u00e9lere-204x300.jpg\" width=\"204\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/O-Besta-C\u00e9lere-204x300.jpg 204w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/O-Besta-C\u00e9lere.jpg 213w\" sizes=\"(max-width: 204px) 100vw, 204px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Editora: Bubok<br \/>\nISBN: 978-84-686-4638-1<br \/>\nG\u00e9nero: Romance<br \/>\nP\u00e1ginas: 235<br \/>\nAno da 1.\u00aa edi\u00e7\u00e3o: 2014<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00ab(\u2026) Besta C\u00e9lere acreditava piamente que se fosse capaz de viver a uma impressionante celeridade o tempo de vida que lhe restava seria capaz de anular ou ao menos atenuar em elevado grau a in\u00e9rcia e o desbarato dos anos transcorridos.\u00bb<br \/>\nRegina Sardoeira, O Besta C\u00e9lere<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Besta C\u00e9lere, protagonista do novo romance de Regina Sardoeira, \u00e9 um animal humano iludido de que poder\u00e1 ganhar tempo, paradoxalmente, depois de o ter delapidado nos anos em que viveu futilmente, dedicado a \u00abocupa\u00e7\u00f5es med\u00edocres\u00bb. Essa recupera\u00e7\u00e3o do tempo \u00e9 coet\u00e2nea da sua busca \u00e0 genealogia do seu ser.<br \/>\nA obsess\u00e3o com o tempo impele-o a viver submetido a uma rotina minuciosamente cronometrada. Todos os segundos de todos os dias da sua exist\u00eancia s\u00e3o alvo de rigorosa medi\u00e7\u00e3o: sabemos quanto tempo pode dispensar \u00e0 reflex\u00e3o matinal, ao culto religioso, \u00e0s refei\u00e7\u00f5es, bem como os artif\u00edcios que lucubra para acelerar a sua celeridade: dorme meio vestido na cozinha, as cal\u00e7as n\u00e3o possuem fecho, o pequeno-almo\u00e7o consiste numa papa com a dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas dias, usa um saco cama para dormir e utens\u00edlios de cozinha descart\u00e1veis, passando a urinar e a defecar em simult\u00e2neo!<br \/>\nEis-nos perante uma personagem bizarra com duas ocupa\u00e7\u00f5es que inicialmente se sucedem e depois se complementam: primeiro apresenta-se-nos enquanto vendedor de rel\u00f3gios. Ironia sublime para quem procura ludibriar o tempo medido; depois descobre uma outra voca\u00e7\u00e3o: a de escrevedor de cartas.<br \/>\nPode ler-se na obra: \u00abSe os rel\u00f3gios cronometram o mundo as cartas s\u00e3o ainda o ve\u00edculo privilegiado da comunica\u00e7\u00e3o e nem todos sabem escrev\u00ea-las\u00bb. Os primeiros s\u00e3o descritos como \u00abaut\u00eanticas met\u00e1foras da cronometria\u00bb; as segundas permitem-lhe comungar das desgra\u00e7as universais, quer dizer, dos problemas existenciais dos seres com que se cruza na sua exist\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 um vendedor de rel\u00f3gios relojoeiro, of\u00edcio que aprendeu com o seu av\u00f4, que exibe com orgulho desmedido \u00abas dezenas de rel\u00f3gios perfeitamente alinhados\u00bb e protegidos na mala de couro preto na qual os transporta, abrindo-a, ami\u00fade, sobre bancos de jardim \u2013 locais de passagem de vidas de transeuntes, que passam sincronicamente com a passagem das vidas.<br \/>\nA primeira carta que escreve \u00e9 uma carta de amor ficcionada, fruto de uma inspira\u00e7\u00e3o repentina e de um \u00edmpeto especulativo, numa idade em que ainda n\u00e3o se reconhecia como C\u00e9lere. Nesse momento, a sua genialidade enquanto epistol\u00f3grafo foi-lhe revelada.<br \/>\nAo longo da obra somos surpreendidos com ep\u00edstolas cuja natureza e fim s\u00e3o d\u00edspares: desde a mulher que necessitava de requerer um subs\u00eddio de invalidez, a uma prostituta que pretende escrever ao filho para que deixe de frequentar a hospedaria imunda na qual trabalha, a uma outra na qual um pedreiro quer escrever a uma estudante liceal, \u00e0quela em que um padre desesperado deve escrever a deus, aqueloutra do Ministro dos Assuntos Financeiros e Econ\u00f3micos, cujo talento \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o teatral, \u00e0 da jovem que pretende suicidar-se. Mas sobre esta o leitor permanecer\u00e1 intrigado, tanto quanto o escrevedor, por n\u00e3o saber se foi real ou sonhada. Finalmente, h\u00e1 a carta do jovem que que ren\u00fancia ao matrim\u00f3nio, com uma mulher de meia-idade, a duas horas do enlace.<br \/>\nRedigidas sempre na primeira pessoa, a assinatura de Besta C\u00e9lere oscila entre os dois g\u00e9neros, o feminino e o masculino. Atrav\u00e9s destas cartas o protagonista, por um lado, d\u00e1-se conta da complexidade, dramaticidade e vacuidade da vida; \u00a0por outro lado, a autora, mediada pela personagem, n\u00e3o ren\u00fancia a tecer cr\u00edticas \u00e0 burocracia, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es miserabilistas da prostituta &#8211; \u00abmulher da vida\u00bb, literalmente como todas as demais; \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dilem\u00e1tica do padre cuja castidade imp\u00f5e a nega\u00e7\u00e3o plena da sua humanidade, \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o do jovem noivo a pretexto de falsos moralismos ou \u00e0 ascens\u00e3o do pol\u00edtico fruto de habilita\u00e7\u00f5es forjadas.<br \/>\nE as cartas, essas mensageiras, ter\u00e3o tamb\u00e9m o papel de suscitar em Besta C\u00e9lere \u00abmem\u00f3rias imprevistas\u00bb. Eis o momento no qual se percebe que Besta C\u00e9lere ousou \u00abdurante dois anos cinco meses e vinte e tr\u00eas dias\u00bb estar apaixonado e ter almejado a felicidade. Todavia, ao amor sucedeu o seu oposto e Besta C\u00e9lere abandonou esse simulacro de amor.<br \/>\nH\u00e1 dois cap\u00edtulos plenos de intensidade e interesse: um designado como \u00abJo\u00e3o Baptista\u00bb, descreve a perplexidade e a express\u00e3o at\u00f3nita de Besta C\u00e9lere quando confrontado, no interior de uma igreja, com um ritual que se lhe afigura como sendo o de um assassinato de um beb\u00e9, n\u00e3o passando, afinal, do ritual de baptismo; o outro, sob o nome de \u00abBranco e Azul\u00bb, d\u00e1-se durante a sua regress\u00e3o vital e radica no facto singular do seu nascimento ser descrito pelo pr\u00f3prio, isto \u00e9, na primeira pessoa. O primeiro cap\u00edtulo citado desvela-nos o olhar distanciado, fruto da ignor\u00e2ncia, de Besta C\u00e9lere face ao evento presenciado; o segundo manifesta o olhar de perten\u00e7a que nos desvenda o sofrimento atroz de quem brota.<br \/>\nA narrativa d\u2019 O Besta C\u00e9lere \u00e9 anal\u00e9ptica: a biografia do protagonista inicia-se pelo seu fim. O leitor assiste \u00e0 morte, \u00e0 velhice, \u00e0 maturidade, \u00e0 adolesc\u00eancia, \u00e0 inf\u00e2ncia e ao nascimento. A temporalidade \u00e9, assim, parceira de um processo de desconstru\u00e7\u00e3o\/reconstru\u00e7\u00e3o da identidade atrav\u00e9s do qual Besta C\u00e9lere se vai conhecendo e, desta forma, apropriando-se de si. O tempo que procura insistentemente readquirir \u00e9 tempo ontol\u00f3gico pelo qual anseia reconhecer-se.<br \/>\nE \u00e9 no momento da sua invisibilidade mor, pr\u00f3pria de quem est\u00e1 prestes a nascer ou a existir &#8211; e de quem n\u00e3o sabe quem \u00e9 e o que existe -, que Besta C\u00e9lere se sente senhor de si e do tempo.<br \/>\nE a pergunta capital n\u00e3o emerge nem no in\u00edcio\/fim, nem no fim\/in\u00edcio da obra, mas sobrev\u00e9m \u00e0 mente do leitor, sendo simultaneamente pessoal e universal: e se a Besta C\u00e9lere \u2013 ou a n\u00f3s pr\u00f3prios &#8211; fosse perguntado se desejaria (mos) ter nascido, o que responderia (mos)?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-align: right; line-height: 1.5em;\">Elsa Cerqueira<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Editora: Bubok ISBN: 978-84-686-4638-1 G\u00e9nero: Romance P\u00e1ginas: 235 Ano da 1.\u00aa edi\u00e7\u00e3o: 2014 &nbsp; \u00ab(\u2026) Besta C\u00e9lere acreditava piamente que se fosse capaz de viver a uma impressionante celeridade o tempo de vida que lhe restava seria capaz de anular ou ao menos atenuar em elevado grau a in\u00e9rcia e o desbarato dos anos transcorridos.\u00bb [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[8],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606"}],"collection":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=606"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":650,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/606\/revisions\/650"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}