{"id":729,"date":"2014-08-10T13:21:32","date_gmt":"2014-08-10T13:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/polegarmente.me\/?p=729"},"modified":"2014-10-05T13:01:16","modified_gmt":"2014-10-05T13:01:16","slug":"vai-e-vem-joao-cesar-monteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/polegarmente.me\/?p=729","title":{"rendered":"Vai-e-Vem, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JCM@jardim-principe-real_LX.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-730 aligncenter\" alt=\"JCM@jardim principe real_LX\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JCM@jardim-principe-real_LX-300x183.jpg\" width=\"300\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JCM@jardim-principe-real_LX-300x183.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JCM@jardim-principe-real_LX-1024x625.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JCM@jardim-principe-real_LX.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ficha t\u00e9cnica:<\/p>\n<p>Realiza\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro<br \/>\nElenco: Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Rita Marques, Joaquina Chicau, Manuela de Freitas, L\u00edgia Soares, Jos\u00e9 Mora Ramos, Rita Dur\u00e3o, Maria do Carmo R\u00f4lo, Miguel Borges, Rita Loureiro, Ana Brand\u00e3o, Tiago Dias, Ana Strindberg<br \/>\nCo-Produ\u00e7\u00e3o: Madragoa Filmes, Gemini Films, Arte-France Cinema<br \/>\nG\u00e9nero: Drama\/Com\u00e9dia<br \/>\nPortugal, 2003, 175\u2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0O ANARQUISMO DE JO\u00c3O VUVU OU DE JO\u00c3O C\u00c9SAR MONTEIRO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>\u00abContra todos os fogos, o fogo,<\/strong><br \/>\n<strong> o meu fogo.\u00bb<\/strong><br \/>\n<strong> Jo\u00e3o Vuvu, \u00a0Vai-e-Vem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 este desejo incendi\u00e1rio de afrontar conven\u00e7\u00f5es que \u00e9 peculiar a \u00abjota, ponto, v\u00ea, ponto\u00bb ou Jo\u00e3o Vuvu (Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro).<br \/>\nO percurso di\u00e1rio no interior do autocarro n.\u00ba 100, an\u00e1logo ao fluir vital, vai deixando, ora no protagonista (Jo\u00e3o Vuvu), ora no espectador, as marcas exteriores daqueles que habitam em Lisboa. O autocarro cruza caminhos, oscilando entre a Pra\u00e7a das Flores e o Jardim do Pr\u00edncipe Real. Durante o trajecto, Jo\u00e3o Vuvu cruza-se com exist\u00eancias aparentemente banais, como a do cauteleiro, a dos reformados e a dos mendigos. Cruza-se com as suas convic\u00e7\u00f5es mais profundas e com as suas descren\u00e7as. Consigo pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-859\" alt=\"Fotograma 1\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-1-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-1-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-1-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-1.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As imagens captadas, sob a batuta deste homem-realizador, homem-personagem, percorrendo estas exist\u00eancias, s\u00e3o magn\u00edficas.<br \/>\nAo longo da narrativa f\u00edlmica, os seus di\u00e1logos-inquieta\u00e7\u00f5es disseminam-se por \u00e1reas distintas, da religi\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica, da filosofia \u00e0 arte. Neles subjaz a preocupa\u00e7\u00e3o pelo problema do (des)sentido da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-742 aligncenter\" alt=\"\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/ComeAndGo1-1-300x164.jpg\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/ComeAndGo1-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/ComeAndGo1-1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista religioso, Jo\u00e3o Vuvu parece pr\u00f3ximo do ide\u00e1rio anarquista[1] de Max Stirner.[2]Tal como este \u00faltimo, admitir\u00e1 o car\u00e1cter alienador de uma religi\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Por isso, afirmar\u00e1 \u00abEngenhocaram uma religi\u00e3o para consolar os pobres\u00bb, como a exist\u00eancia indigente do pequeno mendigo, tocador de acorde\u00e3o (Tiago Dias), para quem a idade seguinte \u00e9 uma probabilidade remota.<br \/>\nE com a ironia c\u00e1ustica que \u00e9 peculiar a Vuvu, ouvimo-lo descrever o epis\u00f3dio fraudulento do nascimento de Jesus e do lamento de Jos\u00e9 a Maria por ter-se esquecido de \u00abapontar a f\u00f3rmula da imaculada fornica\u00e7\u00e3o!\u00bb<br \/>\nDeus n\u00e3o passa de um devaneio fantasmag\u00f3rico do homem e a sua institui\u00e7\u00e3o-mor, a igreja cat\u00f3lica, surge como a nega\u00e7\u00e3o dos valores que proclama e, portanto, \u00e9 anula\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3pria. Antropof\u00e1gica, alimenta-se da pedofilia. Antevis\u00e3o certeira de Jo\u00e3o Vuvu, iconoclasta por voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Estado tamb\u00e9m n\u00e3o lhe merece respeito. Acreditar nele \u00e9 ter f\u00e9 nos homens que o suportam e na sociedade que edifica.<br \/>\nDo ponto de vista pol\u00edtico, a diferen\u00e7a entre o Estado-pol\u00edcia e o Estado-ladr\u00e3o \u00e9 t\u00e9nue: mera quest\u00e3o de perspectivas axiol\u00f3gica e espacial. Mulher-pol\u00edcia (Maria do Carmo R\u00f4lo) versus ex-criminoso (o filho de Vuvu, Jorge, representado pelo actor Miguel Borges). Apenas uma mesa a separ\u00e1-los.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-858\" alt=\"Fotograma 2\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-2-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-2-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-2-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-2.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre o Estado, Stirner declarar\u00e1 que \u00a0\u00ab\u00c9 das cria\u00e7\u00f5es mais funestas, nocivas do homem. (&#8230;) N\u00f3s somos, Estado e Eu, inimigos.\u00bb[3]<br \/>\n\u00c9 esta ideia, de pendor anarquista, de que a sociedade, a religi\u00e3o, o Estado, escravizaram o homem, que o protagonista de Vai-e-Vem personifica: \u00abCom a religi\u00e3o e a pol\u00edtica, o homem encontra-se na esfera do dever.\u00bb[4] \u00c9 em nome da liberdade que transgride todos os imperativos pol\u00edticos e religiosos. Mas descrente em Deus e no pr\u00f3prio Estado, o que resta a Jo\u00e3o Vuvu?<br \/>\nVuvu procurou, tal como D. Juan \u2013 o paradigma do homem no est\u00e1dio est\u00e9tico segundo Kierkegaard -, a feminilidade. A pretexto de um toque ou presen\u00e7a feminina no seu domic\u00edlio, publicita a necessidade de uma mulher-a-dias. Mas os dias implicam as noites e a destreza em \u00abdesencardir len\u00e7\u00f3is\u00bb ou \u00abesfregar vidra\u00e7as\u00bb n\u00e3o constituem, contrariamente ao habitual, pr\u00e9-requisitos para as fun\u00e7\u00f5es. E a mulher-a-dias n\u00e3o se reduz a uma, s\u00e3o v\u00e1rias: Adriana e Urraca (Rita Pereira Marques), Narcisa (L\u00edgia Soares), Jacinta (Rita Dur\u00e3o), Marina (Rita Loureiro), Zulmira (Ana Isabel Strindberg).<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o que estabelece com este universo feminino permite ao espectador aceder \u00e0 personagem, cujo nome[5] remonta a uma fam\u00edlia africana de antiga linhagem, e ao cineasta, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro.<br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 (s\u00f3) a mera satisfa\u00e7\u00e3o do desejo libidinoso que Jo\u00e3o Vuvu procura na(s) mulher(es). Estas s\u00e3o, simultaneamente, o seu alter- ego. \u00c9 o seu eu que se fragmenta nelas e elas espelham as suas m\u00faltiplas facetas.<br \/>\nAdriana, a primeira candidata, \u00e9 \u00abvermelha dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a\u00bb, ou seja, comunista. Perante ela, Vuvu assume a sua condi\u00e7\u00e3o de viuvez e declama uma parte do poema <em>Super Flumina<\/em> do \u00abCavalheiro Cam\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ComeAndGo4.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1040\" alt=\"ComeAndGo4\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ComeAndGo4-300x165.jpg\" width=\"300\" height=\"165\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ComeAndGo4-300x165.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ComeAndGo4.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>\u00c9 not\u00e1vel como a cr\u00edtica ideol\u00f3gica emerge, do ponto de vista ret\u00f3rico, sob o manto do sarcasmo e do ponto de vista c\u00e9nico, com a invers\u00e3o de pap\u00e9is a que se assiste: enquanto a consci\u00eancia revolucion\u00e1ria repousa no canap\u00e9 vermelho, Jo\u00e3o Vuvu esfrega a carpete. A ama e o servo. A pr\u00e1xis \u00e9 (sempre) a morte da teoria.<br \/>\nCom Jacinta a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 (quase) intimista. Convida-a para \u00abcomer as papas \u00e0 mesa\u00bb e ouve-a segredar as humilha\u00e7\u00f5es e prova\u00e7\u00f5es por que passou enquanto aspirante a atriz. Jo\u00e3o Vuvu confidencia-lhe: \u00abEu de cinema n\u00e3o percebo nada, mas pod\u00edamos ensaiar uma zarzuela.\u00bb E, de seguida, irrompem na tela dois esvoa\u00e7antes dan\u00e7arinos, ao som de <em>La verbena de La paloma<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-877\" alt=\"va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-300x182.jpg\" width=\"300\" height=\"182\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-300x182.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nJo\u00e3o Vuvu n\u00e3o cessar\u00e1, at\u00e9 \u00e0 cena final do filme, de surpreender.<br \/>\nCom Urraca assiste-se ao ritual de despojamento da pilosidade excessiva de que padece. Ela \u00e9 s\u00e1fica; Jo\u00e3o Vuvu, ser\u00e1fico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Imagem3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-875\" alt=\"Imagem3\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Imagem3-300x200.jpg\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Imagem3-300x200.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Imagem3.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa das cenas seguintes, Jo\u00e3o Vuvu surge no hospital. O motivo? Um enorme p\u00e9nis enfiado naquele orif\u00edcio situado nas partes baixas. E v\u00ea-se, numa atmosfera de surrealidade, mediante a qual os objetos deixam de ser meros objetos para adquirem o estatuto de personagens, o m\u00edssil desmesuradamente grande pousado em cima da bandeira americana. Est\u00e1tua da liberdade ou da libertinagem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Cama-Hospital.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-860\" alt=\"Cama Hospital\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Cama-Hospital-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Cama-Hospital-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Cama-Hospital-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Cama-Hospital.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nE quando Jo\u00e3o Vuvu faz a apologia do olho que n\u00e3o v\u00ea, culminando na cena cuja m\u00e1xima do seu agir \u00e9 \u00abPas de plaisir sans p\u00e9nis\u00bb, percebe-se, prontamente, que a sua genealogia remonta a Georges Bataille.<br \/>\nNuma das suas viagens, no interior do autocarro n.\u00ba 100, Jo\u00e3o Vuvu reencontra Fausta (Manuela de Freitas), uma prostituta que agora exerce o seu of\u00edcio no escad\u00f3rio da Assembleia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-J-Vuvu.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-873\" alt=\"hqdefault J Vuvu\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-J-Vuvu-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-J-Vuvu-300x225.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-J-Vuvu-240x180.jpg 240w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-J-Vuvu.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o pretexto de mais uma vez, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro \u2013 relembremos o filme, <em>Que farei eu com esta Espada<\/em>?[6] -, retratar Portugal como um pa\u00eds de prostitutas.<br \/>\nPara al\u00e9m do elevado interesse que tal profiss\u00e3o possa despertar, creio que o relevante \u00e9 a den\u00fancia da hipocrisia &#8211; em nome de uma moral das apar\u00eancias &#8211; com que os deputados ostentam a Cousa (Res) p\u00fablica e que se reduz aos pr\u00e9stimos das referidas senhoras.<br \/>\nDa\u00ed que sugira de forma encantadoramente provocat\u00f3ria a legaliza\u00e7\u00e3o do broche chin\u00eas, nos seguintes termos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abO broche chin\u00eas, tamb\u00e9m designado por brochim, devido \u00e0 sua remota origem asi\u00e1tica, \u00e9 especialmente recomendado para senhoras ou meninas que n\u00e3o se sentem cativadas pela arte de bem o fazer, ressalvando que os incentivos que, no \u00e2mbito comunit\u00e1rio, lhe ser\u00e3o facultados, devem inserir-se numa rigorosa pol\u00edtica de desenvolvimento das ind\u00fastrias de recreio e lazer, pelo que seu exerc\u00edcio ser\u00e1 obrigatoriamente orientado por profissionais altamente qualificadas e com sobejas provas dadas em t\u00e3o laboriosa e intrincada tecnologia de ponta.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ao envelhecimento do protagonista junta-se a viuvez. Por isso, sentenciar\u00e1: \u00abEstou de luto e n\u00e3o deputo\u00bb.<br \/>\nA sequ\u00eancia de imagens nas quais, no interior de um caf\u00e9, conversa com a sua amiga Fausta, saboreando a tisana, \u00e9 lind\u00edssima: uma mesa, uma janela pela qual os raios de sol entram timidamente e dois rostos de perfil em comunh\u00e3o lingu\u00edstica. Duas sombras chinesas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-748\" alt=\"hqdefault\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-300x225.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault-240x180.jpg 240w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/hqdefault.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\">Finalmente, o filho, Jorge Vuvu, regressa do c\u00e1rcere: \u00abExpiou a sua d\u00edvida para com a sociedade\u00bb &#8211; afirmar\u00e1 Jo\u00e3o Vuvu.<a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1041\" alt=\"va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858 (1)\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-1-300x182.jpg\" width=\"300\" height=\"182\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-1-300x182.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/va_et_vient_vai_e_vem_2002_portrait_w858-1.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alegria de Vuvu, pai, \u00e9 grande. Mas grande ser\u00e1 tamb\u00e9m o desgosto que o duplo homicida provocar\u00e1 no progenitor, quando antevendo o (seu) futuro se apropriar dos seus bens e o confinar a um asilo. O filho \u00abest\u00e1 cheio de futuro\u00bb e Jo\u00e3o Vuvu \u00abcheio de passado.\u00bb<br \/>\nComo resolver esta incompatibilidade gen\u00e9tico-temporal?<br \/>\nJo\u00e3o Vuvu \u00e9 c\u00e9lere na resposta: pragm\u00e1tico, atira o filho ao rio, gritando-lhe \u00abV\u00e1 chamar pai a outro!\u00bb. Vuvu n\u00e3o manifesta nenhum remorso pelo crime cometido. Ali\u00e1s,outra das mentiras engendradas pela religi\u00e3o foi o conceito, a no\u00e7\u00e3o de pecado e do seu suced\u00e2neo, o remorso. Pode ler-se na obra \u201cO \u00fanico e a sua propriedade\u201d de Stirner: \u00abA religi\u00e3o estabeleceu o princ\u00edpio que N\u00f3s somos todos pecadores e Eu, pela minha parte, obsto: N\u00f3s somos todos perfeitos!\u00bb[8]<br \/>\nDe resto, tamb\u00e9m a vida n\u00e3o se cond\u00f3i com as demais exist\u00eancias indigentes, como a do pequeno mendigo, tocador de acorde\u00e3o (Tiago Dias), para quem a idade seguinte \u00e9 uma probabilidade remota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-863\" alt=\"Fotograma 3\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-3-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-3-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-3-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-3.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa das suas encena\u00e7\u00f5es teatrais e ao simular a sua morte, ouve-se Jo\u00e3o Vuvu pronunciar \u00abRosebud\u00bb. Palavra paradigm\u00e1tica proferida por Kane, personagem do sublime filme <em>O Mundo a seus p\u00e9s<\/em>\u00a0(Welles, 1941) que enfatiza a necessidade da exist\u00eancia aut\u00eantica ser desagrilhoada dos bens materiais e repleta de afectos. Liberdade do sentir. Manifesta\u00e7\u00e3o hedonista do estar.<br \/>\nInteressa-me Jo\u00e3o Vuvu, n\u00e3o enquanto cr\u00edtico de arte (um dos sentidos da palavra <em>aisth\u00e9sis<\/em>), mas enquanto ser que concede primazia ao elemento est\u00e9tico da sua exist\u00eancia e que faz do sentir o crit\u00e9rio da realidade. \u00c9 certo que Vuvu vive, tal como o homem est\u00e9tico kierkegaardiano, sob o paradigma da imagina\u00e7\u00e3o e da fantasia. Todavia, n\u00e3o h\u00e1 nada de banal nas suas frui\u00e7\u00f5es. Viver no imediato \u00e9 reconhecer em si a temporalidade. Mas o imediato \u2013 o seu imediato &#8211; n\u00e3o \u00e9 aparente, ordin\u00e1rio ou extr\u00ednseco. Viver no imediato \u00e9 recusar assumir-se enquanto eternidade forjada.<br \/>\nDa\u00ed que um poema, uma melodia, uma conversa sejam cria\u00e7\u00f5es que se fundem com todo o ser que se lhes manifeste abertura. E no momento em que o tocam, possuem-no. Tornam-se-lhe intr\u00ednsecos.<br \/>\nE, apesar, de Jo\u00e3o Vuvu assumir ironicamente \u00abque os livros n\u00e3o s\u00e3o para ler. Fazem-me companhia e d\u00e3o menos trabalho que um c\u00e3o\u00bb, sabe que eles \u00abguardam segredos que n\u00e3o nos confiam\u00bb. De resto, os longos e geniais di\u00e1logos do protagonista, durante o filme, manifestam uma acuidade e preocupa\u00e7\u00e3o desmedidas pelas palavras. Como refere, \u00abA poesia n\u00e3o \u00e9 um ato de selvajaria.\u00bb<br \/>\nO protagonista n\u00e3o recusa pensar sobre si, n\u00e3o se aliena ou despoja de si e, como tal, n\u00e3o se incluiu na imediatez de uma exist\u00eancia superficial. Neste sentido \u00e9 anti-kierkegaardiano. Jo\u00e3o Vuvu \u00e9 algu\u00e9m que percebeu que as faculdades de sentir e de pensar s\u00e3o as duas faces da exist\u00eancia.<br \/>\nVuvu n\u00e3o \u00e9 eleito pelas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas (teatro, canto, literatura, prov\u00e9rbios, m\u00fasica, etc.), ou pelas companhias femininas com que se rodeia prenhes de sensualidade, \u00e9 algu\u00e9m que as elege de acordo com o crit\u00e9rio da intensidade da frui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO homem est\u00e9tico \u00e9 aquele que ao recuperar a sua sensibilidade, ao transgredir a med\u00edocre normalidade, recupera a sua autenticidade. E Jo\u00e3o Vuvu consubstancia este paradigma.<br \/>\nEnquanto o homem est\u00e9tico kierkegaardiano \u00e9 escravo de si mesmo, Jo\u00e3o Vuvu \u00e9 senhor de si mesmo.<br \/>\nConv\u00e9m salientar que o h\u00e1bito tamb\u00e9m acompanha Jo\u00e3o Vuvu sempre que \u00e9 o passageiro do autocarro n.\u00ba 100. Mas este itiner\u00e1rio rotineiro n\u00e3o anula o seu prazer: \u00e9 uma esp\u00e9cie da catarse ambulante, atrav\u00e9s da qual se vai deparando com os outros: Cust\u00f3dia, Fausta, Tiago, coro de ucranianos, etc.<br \/>\nE o cinema de Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro \u00e9 potencia\u00e7\u00e3o pura desta cumplicidade com o quotidiano. \u00c9 imagem que se move, tal como o movimento do autocarro, seguindo ou perseguindo o ritmo da vida. \u00c9 a real subjectividade objectivada pela sua c\u00e2mara.<br \/>\nA realidade percepcionada por Vuvu \u00e9 a sua realidade, pelo que o real \u00e9 e ser\u00e1 sempre plural.<br \/>\nMas se a personagem faz da transgress\u00e3o a sua ess\u00eancia, n\u00e3o \u00e9, no entanto, descomprometido. O seu compromisso \u00e9 com a sua vida, com o seu Eu: \u00abEu sou eu. Para mim nada mais est\u00e1 ou \u00e9 para al\u00e9m de mim pr\u00f3prio\u00bb &#8211; tal a m\u00e1xima do anarquismo individualista que Vuvu pratica at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o.<br \/>\nEsta auto-centra\u00e7\u00e3o do eu \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da desaliena\u00e7\u00e3o, concebida enquanto apropria\u00e7\u00e3o de si: somos escravos de deus, do estado, da moral, quer dizer, do pr\u00f3prio homem, e doravante, quer o fil\u00f3sofo alem\u00e3o, quer a personagem-realizador, ter\u00e3o que se assumir enquanto tecel\u00f5es das suas exist\u00eancias. E \u00e9 precisamente esta recupera\u00e7\u00e3o do Eu original e origin\u00e1rio, total, \u2013 o eu \u00danico &#8211; que ambos reclamar\u00e3o.<br \/>\nEis a frase de Stirner que poderia ter sido proferida por Vuvu: \u00abEu sou incomparavelmente \u00fanico.\u00bb<br \/>\nDe facto, o isolamento de Vuvu, assaz filos\u00f3fico, consubstancia esta exalta\u00e7\u00e3o do valor intr\u00ednseco do indiv\u00edduo, enquanto \u201c\u00danico\u201d.<br \/>\nVuvu, tal como Stirner, quer desfrutar o mundo, concebido enquanto sua propriedade, para conquist\u00e1-lo: por um lado, as suas peregrina\u00e7\u00f5es no autocarro traduzem a sua necessidade do relacionamento com os outros; por outro, \u00e9 o seu interesse pessoal que est\u00e1 na base das suas deambula\u00e7\u00f5es f\u00edsico-mentais e decis\u00f5es.<br \/>\nA personagem faz da vida, a Sua vida. O seu Eu \u00ab\u00fanico\u00bb &#8211; no sentido stirniano &#8211; \u00e9 a ru\u00edna do universal, \u00e9 subjetividade inaugural.<br \/>\nO dinamismo vital de Jo\u00e3o Vuvu encontra-se no seu inconformismo criativo, aquele que lhe permite assumir-se como exist\u00eancia singular, \u00fanica e o autocarro espelha esse movimento, ora ascendente, ora descendente. Assim, parece que as categorias do espa\u00e7o e do tempo se submetem ao ritmo da sua exist\u00eancia. Como se a personagem e o cineasta defrontassem estas coordenadas, manipulando-as a seu bel-prazer, numa tentativa de as subjugar. Heresia suprema.<br \/>\nConfrontando-se com o problema da exist\u00eancia ou da exist\u00eancia concebida como problema, Jo\u00e3o Vuvu opinar\u00e1: \u00abS\u00f3 o problema \u00e9 interessante, nunca a solu\u00e7\u00e3o.\u00bb Esta \u00e9 an\u00e1loga ao movimento circular, o \u201cvai-e-vem\u201d da bicicleta no jardim do Pr\u00edncipe Real. Por isso, \u00abo ser humano ou o que dele resta tem que viver com a insolubilidade da vida.\u00bb Eis-nos, agora, perante um Vuvu camusiano a rejeitar a morte premeditada, o suic\u00eddio.<br \/>\nE quando num enquadramento contrapicado, filmado a preto e branco, o protagonista insiste em entrar (descer) na capela mortu\u00e1ria, n\u00e3o obstante ser repelido pelo cruxifico do padre (Rui Lu\u00eds), para velar a sua Hort\u00eansia &#8211; \u00absua esposa durante vinte e tr\u00eas anos e vinte e tr\u00eas dias\u00bb &#8211; deparamo-nos com Nosferatu reincarnado. \u00c9 o imagin\u00e1rio on\u00edrico da personagem a sobrepor-se ao princ\u00edpio da sua\/nossa realidade.<br \/>\nMunido com os seus \u00f3culos escuros, chap\u00e9u de panam\u00e1 e bengala, Jo\u00e3o Vuvu \u00e9 a express\u00e3o imag\u00e9tica dos paradoxos que a natureza humana cont\u00e9m mas que o homem tende a dissimular em nome de uma pretensa coer\u00eancia, de uma fidelidade a valores como o bem, o mal, o certo, o errado, etc. &#8211; meras clausuras mentais, filhas bastardas do espa\u00e7o e do tempo, que Vuvu ousa desafiar. E num movimento de representa\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica &#8211; num vai-e-vem esp\u00e1cio-temporal -, percebe-se quando \u00e9 a tese e o seu oposto, a ant\u00edtese. Nunca Vuvu pretendeu fazer ou ser a s\u00edntese. \u00c9, simultaneamente, o criador e a (sua) criatura. Um insubmisso. Um esteta. Um esteta anarquista.<br \/>\nA quest\u00e3o que paira durante todo o filme \u00e9: onde finda J. Vuvu e principia J. C\u00e9sar Monteiro ou vice-versa? \u00c9 a personagem um registo autobiogr\u00e1fico do cineasta?<br \/>\nFalando de si, J. C\u00e9sar Monteiro asseverar\u00e1:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abN\u00e3o fa\u00e7o parte de grupos e n\u00e3o tenho quaisquer afinidades culturais com colegas meus. Sinto-me, portanto, \u00e0 margem daquilo a que se chama o novo cinema portugu\u00eas e isso nada tem a ver com o facto de haver tr\u00eas ou quatro tipos interessantes que podem at\u00e9 fazer filmes interessantes e com quem \u00e9 agrad\u00e1vel tomar caf\u00e9 e trocar impress\u00f5es.<br \/>\nConv\u00e9m, no entanto, deixar bem claro o seguinte: sou um tipo ferozmente individualista que a si mesmo se toma pelo centro do mundo e est\u00e1 profundamente convencido que estas coisas de cinema, ou do que quer que seja, se atravessam sozinho. That\u2019s all.<br \/>\n(&#8230;) O cinema n\u00e3o \u00e9 mais do que um itiner\u00e1rio que instaura o reencontro consigo mesmo. Ou Ulisses de novo em \u00cdtaca.\u00bb<\/p>\n<p>H\u00e1 uma ironia corrosiva encantat\u00f3ria, um non-sense delicioso que perpassa toda esta narrativa em movimento, que s\u00f3 se det\u00e9m na fixidez e imobilidade do grande plano com que o filme encerra.<br \/>\nNas imagens finais, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro oferece-nos Dafne, a ninfa da \u00e1rvore sagrada. Sentinela do Vai-e-Vem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Concurso-Cinelit\u00e1rio-ESA.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-861\" alt=\"Concurso Cinelit\u00e1rio ESA\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Concurso-Cinelit\u00e1rio-ESA-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Concurso-Cinelit\u00e1rio-ESA-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Concurso-Cinelit\u00e1rio-ESA-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Concurso-Cinelit\u00e1rio-ESA.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\nInebriados pelo som do <em>Motete Qui habitat<\/em> do compositor renascentista, Josquin Desprez, sentimo-nos ascender a uma atmosfera metaf\u00edsica, propicia \u00e0 derradeira revela\u00e7\u00e3o: o azul cintilante do olhar fixo que olha e nos olha. Mar e Homem fundidos. Imensid\u00e3o e Profundeza. \u00c9 avassalador.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-6.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-866\" alt=\"Fotograma 6\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-6-300x187.jpg\" width=\"300\" height=\"187\" srcset=\"https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-6-300x187.jpg 300w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-6-1024x640.jpg 1024w, https:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Fotograma-6.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p>Capta\u00e7\u00e3o do que havia sido e persistir\u00e1: as lentas metamorfoses do Fogo.<br \/>\nJo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro.<\/p>\n<\/div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[1] Imp\u00f5e-se a seguinte clarifica\u00e7\u00e3o: \u00abAbordar um te\u00f3rico (e pr\u00e1tico) do anarquismo constitui sempre uma tarefa complexa e de dif\u00edcil consecu\u00e7\u00e3o. Depara-se, frequentemente, com dois obst\u00e1culos. O primeiro reporta-se \u00e0 heterogeneidade de esp\u00e9cies, por vezes antin\u00f3micas, dentro do g\u00e9nero \u2018Anarquismo\u2019. Fala-se, por exemplo em anarquismo individualista (Stirner), comunista (Kropotkine) e colectivista (Bakunine).<br \/>\nLonge de se constituir numa doutrina, o movimento anarquista assenta a sua base dinamog\u00e9nica nessa pluralidade de pontos de vista. Mas os benef\u00edcios que adv\u00eam do di\u00e1logo entre as diversas mentalidades de tend\u00eancia anarquista, transmutam-se em dificuldades quando se trata de explicitar os fundamentos de um movimento que, por natureza, admite a convivencialidade de enfoques diferenciados.<br \/>\nO segundo radica nos riscos e defeitos do senso comum que toma como verdades absolutas ideias simplistas e redutoras. \u00c9 testemunha disso a associa\u00e7\u00e3o feita entre a anarquia e o caos ou a extrapola\u00e7\u00e3o abusiva de que a cr\u00edtica anarquista a toda a autoridade desp\u00f3tica encerra a assun\u00e7\u00e3o de um estado de desordem.\u00bb In O Anarquismo Societ\u00e1rio de Pedro Kropotkine, Elsa Cerqueira, Revista Utopia, n.\u00ba 10, 1999.<br \/>\n[2] Max Stirner, pseud\u00f3nimo de Johann Kaspar Schmidt (1806-1856), fil\u00f3sofo e pensador alem\u00e3o.<br \/>\n[3] Idem, p\u00e1gs. 245,249.<br \/>\n[4] Idem, p\u00e1g.229.<br \/>\n[5] Idem, p\u00e1g. 285.<br \/>\n[6] Em Zulu, o nome Vuvu significa \u00abfazedor de barulho\u00bb.<br \/>\n[7] Que farei eu com esta espada?, 1975.<br \/>\n[8] M. Stirner, L\u2019 Unique et sa propri\u00e9t\u00e9, p\u00e1g. 404.<br \/>\n[9] Citizen Kane, Orson Welles, 1941.<br \/>\n[10] Consultar a obra Os v\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o crimes, do anarquista individualista Lysander Spooner (1808-1887).<br \/>\n[11]Idem, p\u00e1g. 89.<br \/>\n[12] Idem, p\u00e1g. 197.<br \/>\n[13] Idem, p\u00e1g. 356.<br \/>\n[14] Nosferatu, Friedrich Wilhelm Murnau, 1922.<br \/>\n[15] Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Auto-entrevista in Morituri Te Salutant.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">____________________________<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p>FILMOGRAFIA<\/p>\n<p>VAI-E-VEM, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Madragoa Filmes, 2003.<br \/>\nQUE FAREI EU COM ESTA ESPADA?, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Oficina de Cinema, 1975.<br \/>\nCITIZEN KANE, Orson Welles, Mercury Productions\/Orson Welles\/RKO Radio Pictures Inc, 1941.<br \/>\nNOSFERATU, F.W. Murnau, Jofa-Atelier Berlin-Johannisthal,1922.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>AUTO-ENTREVISTA, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro. O Tempo e o Modo. N.\u00ba69\/70 de Mar\u00e7o\/Abril de 1969. Morituri te Salutant. Edi\u00e7\u00e3o &amp; etc, Novembro, 1974.<br \/>\nBATAILLE, Georges. Hist\u00f3ria do olho e de minha m\u00e3e (1967). Lisboa: Livros do Brasil, 1988.<br \/>\nCERQUEIRA, Elsa. O Anarquismo societ\u00e1rio de Pedro Kropotkine, Revista Utopia, Edi\u00e7\u00e3o Associa\u00e7\u00e3o Cultural A Vida, n.\u00ba 10, 1999.<br \/>\nGU\u00c9RIN, Daniel. L\u2019 Anarchisme. Paris: Gallimard, 1965.<br \/>\nKIERKEGAARD, Soren. Temor e Tremor (1843). Lisboa: Guimar\u00e3es Editores, 1990.<br \/>\nPR\u00c9POSIET, Jean. Histoire de l\u2019 Anarchisme. Paris: Editions Tallandier, 1993.<br \/>\nWOODCOCK, George. Anarchism (1962). London: Penguin Books, 1986.<br \/>\nSTIRNER, Max. L\u2019 Unique et sa propri\u00e9t\u00e9 (1844). Tradu\u00e7\u00e3o P. Galissaire et Andr\u00e9 Sauge. Lausanne:<br \/>\nEditions L\u2019Age d\u2019Homme, 1972.<br \/>\nSPOONER, Lysander. Os v\u00edcios n\u00e3o s\u00e3o crimes (1875), Lisboa: Fenda,1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Elsa Cerqueira<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota Marginal Um<\/strong>: Comunica\u00e7\u00e3o apresentada no semin\u00e1rio<em> Entre Filosofia, Cinema e Literatura<\/em>. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. \u00a07\/05\/2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota Marginal Doi<\/strong>s: Ensaio publicado na obra intitulada &#8220;(Im)poss\u00edveis (Trans)posi\u00e7\u00f5es: Ensaios sobre Filosofia, Literatura e Cinema&#8221;. Z\u00e9firo, Setembro, 2014.<\/p>\n<p>_________________________<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_876\" style=\"width: 207px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Jo\u00e3o-Vuvu.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-876\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-876\" alt=\"Jo\u00e3o Vuvu\" src=\"http:\/\/polegarmente.me\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Jo\u00e3o-Vuvu.jpg\" width=\"197\" height=\"229\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-876\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro (1939-2003)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/eLm8_i90lt4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ficha t\u00e9cnica: Realiza\u00e7\u00e3o: Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro Elenco: Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Rita Marques, Joaquina Chicau, Manuela de Freitas, L\u00edgia Soares, Jos\u00e9 Mora Ramos, Rita Dur\u00e3o, Maria do Carmo R\u00f4lo, Miguel Borges, Rita Loureiro, Ana Brand\u00e3o, Tiago Dias, Ana Strindberg Co-Produ\u00e7\u00e3o: Madragoa Filmes, Gemini Films, Arte-France Cinema G\u00e9nero: Drama\/Com\u00e9dia Portugal, 2003, 175\u2019 &nbsp; \u00a0O ANARQUISMO DE [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/729"}],"collection":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=729"}],"version-history":[{"count":59,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1257,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions\/1257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/polegarmente.me\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}