Clube de Cinema

Filed in Curtas PolegarMente.me by on December 31, 2014 0 Comments
CLUBE CINEMA

Cartaz do Clube de Cinema

 

1.Clube de Cinema 

O Clube de Cinema (CC) surgiu, no ano lectivo 2012-13, da junção entre duas ordens de natureza distintas, a voluntária e a normativa. A primeira, dado que se alicerça na motivação intrínseca da sua proponente em utilizar as curtas-metragens como instrumentos didácticos para transmitir, problematizar e consolidar conteúdos; a segunda decorre da obrigatoriedade em assegurar a prestação de serviço não lectivo na Escola Secundária/3 de Amarante e da abertura da sua Direcção em aceitar o meu projecto.
A sua premissa radica no pressuposto de que os alunos, não são espectadores passivos, meros receptáculos de informação, paradigma predominante no modelo de ensino psitacista, mas seres activos no desenvolvimento das suas competências ou habilidades cognitivas, afectivas e conativas.
Os jovens são, por natureza seres questionadores, filósofos em potência, e só uma pedagogia criativa que eduque e estimule simultaneamente a visão, o olhar, – ou não vivêssemos numa sociedade cujo paradigma é a linguagem audiovisual – e as habilidades inerentes ao pensar é que poderá estimular o desenvolvimento de cidadãos críticos e interventivos.
A utilização de curtas-metragens decorre do constrangimento temporal ou duração semanal do CC. Os três blocos de 50 minutos semanais poderão estar distribuídos por três dias (3X50 m.) ou por dois (1 bloco de 50 + 1 bloco de 100 m.). E os alunos poderão deslocar-se e usufruir dele nos dias e horas publicitados no cartaz criado para esse efeito pelo artista e professor Júlio Cunha.
Todos os alunos quer do 3.º ciclo do ensino básico (7º, 8º e 9º anos), quer do ensino secundário (10º, 11º e 12º anos) poderão optar por uma sessão.

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Eis alguns dos títulos das curtas-metragens exibidas no CC:
A noite saiu à rua (Abi Feijó, 1987); Meat Love (Jan Svankmajer, 1989); Uncle (Adam Elliot, 1996); The old lady and the pigeons (Sylvan Chomet, 1998); The old man and the sea (Alexander Petrov, 1999); Alferes (Júlio Alves, 2000); Music for apartment and six drummers (Nilsson e Simonsson, 2001); História Trágica com um final feliz (Regina Pessoa, 2005); Wasp (Andrea Arnold, 2005); Quando eu morrer (L. Vieira Campos, 2006); Ossudo (Júlio Alves, 2007), La flor más grande del mundo ( J. Pablo Etcheverry, 2007); China, China (Rodrigues e Mata, 2007); Madame Tutli-Putli (Lavis & Szczerbowski, 2007); El Empleo (S. Bou Grasso, 2008); Pássaros (Filipe Abranches, 2009); O Jogo (Júlio Alves, 2010); Invention of Love (Andrey Shushkov, 2010), Wind (Robert Lobel, 2013).

1.1.Metodologia

A educação do olhar, como requisito da ampliação do pensar, tem um cariz essencialmente prático. Visa mobilizar o contemplado, entrecruzando-o com as vivências dos alunos e com os conhecimentos programáticos da disciplina de filosofia. No caso de alunos que frequentem o 3.º ciclo do ensino básico haverá, inevitavelmente, o aprimoramento do pensar, do sentir e do imaginar convocando as experiências vividas “dentro” e “fora” do filme, quer dizer, as cenas que integram a narrativa fílmica e as suas vivências, sobretudo no domínio dos valores éticos.

Clube de Cinema

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Há sempre um guião de análise fílmica[1]  que pode não ser formalmente apresentado mas seguido, mediante a interpelação oral – e por vezes escrita – individual e/ou coletiva, pois tal como outro recurso educativo, um livro por exemplo, também o filme necessita de ser laboriosamente visto e revisto, descoberto e redescoberto pelo professor. Poderia abordar nas aulas a ética utilitarista de Stuart Mill sem ler a sua obra o Utilitarismo? Obviamente que não. O mesmo se passa com qualquer obra fílmica. Daí a necessidade imperiosa da formação e preparação do professor neste domínio.

1.2. Experienciar uma Curta-Metragem: Quando eu morrer[2] , Luís Vieira Campos

Mário Moutinho, Aurora Gaia, Odete Môsso

Mário Moutinho, Aurora Gaia, Odete Môsso
Foto: Alexandre Carvalho

Ficha técnica:

Realização e argumento: Luís Vieira Campos
Elenco: Aurora Gaia, Mário Moutinho, Odete Mosso, Jorge Loureiro, Tó Maia, Pedro Gaspar
Música Original: Manuel Cruz (Ex. Ornatos Violeta)
Produção Alfândega-Filmes
Género: Drama
Portugal, 2006,10’

A sequência de imagens iniciais do filme é enigmática. Guiados pelo olhar de Luís Vieira Campos, o aluno percorre com o seu olhar as escadas de um prédio antigo (marcas do tempo visíveis, por exemplo, nos materiais do elevador). A subida é ritmada pela música da autoria de Manel Cruz e o minimalismo no domínio dos elementos cénicos utilizados, uma escada, um elevador, ajuda a intensificar esta ambiência misteriosa, tal como num filme hitchcockiano.
Capta-se (num plano contrapicado) uma ascensão-inquietação propedêutica a todo o Filosofar. É esta atitude com um misto de curiosidade e de atenção que um filme, tal como a Filosofia, deve suscitar.
O monólogo interior do aluno-espectador é inevitável: O que sucederá? Que descobertas farei? À ascensão (vida), sucederá a queda (morte)?
Luís Vieira Campos filma com realismo os rituais milenares das viúvas que vestem os seus mortos. O luto de D. Natércia (Aurora Gaia) é pertença de todas.
Eis-nos perante a problemática filosófica da morte. A tomada de consciência da finitude dos outros, é coetânea da nossa, e assim a constatação da nossa condição de seres viventes introduz os alunos na indagação sobre o sentido da vida. Interrogação simultaneamente pessoal e universal.
Ao longo da narrativa fílmica há elementos visuais e sonoros que se abatem sobre o espectador-aluno e o despertam. Acompanhar as surpresas desveladas ao longo do filme é aceder a um outro olhar sobre a realidade, neste caso, ficcionada.

Quando eu morrer, Luís Vieira Campos,2006

É surpreendente perceber que, do ponto de vista psicológico, a viúva se metamorfoseia: do rigor e minucia com que passa a camisa, veste o marido e altivez iniciais, percecionada na reprovação feita aos funcionários da agência funerária, pela aresta danificada do caixão, à senhora afetuosa que abandona o caixão para socorrer a vizinha (Odete Môsso)…
Dado que a experiência da morte só pode ser indireta, mediada pela morte daqueles que nos são próximos ou pelas imagens televisivas da morte dos anónimos, os alunos frequentemente convocam para o diálogo as mortes dos seus familiares e amigos.
As mortes de todos os dias, ou noites, não banalizam a própria morte, dado que cada defunto, na ótica personalista, é único e insubstituível. Mas o filme não se reduz à temática da morte. Como refere Platão (s.d.) no Fédon “a única tarefa da Filosofia propriamente dita é, sem que talvez os outros homens disso dêem conta, morrer e estar morto”[3], a vida enquanto preparação para a morte.
Segundo a filosofia “orgânica” de Emil Cioran, a experiência da morte desvela-se enquanto experiência da subjectividade. Nela, o eu e a morte não se dissociam. A morte emerge como o princípio de negatividade da vida, marcando o seu triunfo sobre ela. A vida está prenhe de morte, é morte em potência. Daí a inevitabilidade do “convívio” destes opostos. O filme nutre-se deste diálogo bipolar.

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À descida do caixão, pelas escadas, sucede o prenúncio de uma (nova) vida, com a iminência do parto da vizinha. E a cena final na qual o carro abandona a sua condição de funerário para se instituir em carro que alberga e socorre um novo ser, provocando esteticamente uma sensação de estranhamento no aluno-espetador, é repleta de um humor refinado e de uma ironia sublime, trazendo-me à memória os sketches dos Monty Python.

No CC as lições cinematográficas são lições filosóficas. E Quando eu morrer possibilita:
1.Abordar a temática da morte, desbanalizando-a.
«Esta curta-metragem desmitifica a morte que é um assunto tabu» (Sónia Borges, 12.º Ano).
2.Convocar as experiências dos alunos.
Constatar, que à vida sucede a morte e que há sempre alguém prestes a morrer/viver. Se estamos condenados a morrer, também estamos condenados a viver. A nossa “condenação” à morte ou à nossa condição de mortais acarreta o uso do livre arbítrio em vida: «Quando eu morrer, o mundo poderá, ou não, chorar por mim. Mas o certo é que um dia, inevitavelmente, vou abraçar a morte fazendo outro alguém abraçar a vida. É por esta circunstancialidade que nos esforçamos tanto para dar sentido à nossa existência.» (Marco Pinheiro, 12.º Ano).
3.Problematizar se, do ponto de vista axiológico-valorativo, o ser é mais importante que o não ser.
«Uma vida é mais importante do que uma morte?» (Susana Pereira, 12.º Ano).
«Na curta-metragem o que está em jogo são vidas. Enquanto uma vida se perde, há outra que (re) nasce. É o ciclo da vida.» (Helena Leite, 12.º Ano).
«A morte de uns precede o nascimento de outros. Mas, afinal, é mais importante a morte de um ente querido ou o nascimento de alguém (estranho)? A morte ou a vida?» (Débora Costa, 12.º Ano).
4.Compreender que o sentido da nossa existência implica uma busca, simultaneamente, pessoal e social.
«A morte é imprescindível à vida. Ela possibilita a renovação dos seres, crucial à evolução. Olhemo-la de forma natural. Ela imprime-nos o conceito de limitação e, portanto, conduz-nos à procura de autorrealização.» (Carla Soares, 12.º Ano).
5. Questionar. As interrogações que o filme suscita – perfil psicológico das personagens, os cenários, a banda sonora, o tempo e o espaço, o argumento – contribuem para a amplidão dos olhares compreensivos, explicativos e críticos sobre as obras visionadas. Um olhar segundo sobre o primeiro olhar.
Eis alguns dos méritos da abordagem, simultaneamente, pedagógica e filosófica desta curta-metragem.

O Cinema na Escola, educação de um olhar segundo face ao primeiro, estimula as faculdades da sensibilidade, do entendimento e da imaginação, potenciando a formação integral do espectador-aluno. A experiência fílmica ou a recepção da obra cinematográfica é concebida como o olhar filosófico que se perde e se reencontra, que dialoga com os olhares dos outros (do professor, da obra e dos seus pares) permitindo a abertura a novos horizontes de sentido da existência.
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[1] ROTEIRO DE QUESTÕESVF

[2] Disponível em http://vimeo.com/user32462034/quandoeumorrer
[3] Tradução de P.e. Eusébio Dias Palmeira, Introdução e Comentários, Maria Arminda Alves de Sousa, Porto Editora,Porto,1995. pág. 31.

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FILMOGRAFIA

QUANDO EU MORRER, Luís Vieira Campos, Alfândega-Filmes, 2006.
BIBLIOGRAFIA

PLATÃO (s.d.), Fédon, Tradução de P.e. Eusébio Dias Palmeira. Porto Editora, Porto,1995.

MONTEIRO, João César (1974). Morituri te Salutant.Lisboa, Edição & etc, Novembro, 1974.
WEBLIOGRAFIA

QUANDO EU MORRER, [http://quandoeumorrer.blogspot.pt/], (Site accessed 10 August 2014).

Elsa Cerqueira

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Nota Marginal: Comunicação (parcial) apresentada no I Congresso Internacional As Artes na Educação, promovido pela Associação Intervenção.Amarante. 14 a 16/11/2014.

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