A cosmogonia onírica de Karin Somers

Filed in Esculturas PolegarMente.me by on February 19, 2014 2 Comments
O efeito dos dias

O efeito dos dias

Genealogia do acto de criar

O processo criativo de Karin Somers é herdeiro de duas interioridades: uma que remete física e espacialmente para o processo de modelagem em grês, através do qual a obra germina literalmente de dentro para fora, com a mesma proximidade, afeição, esforço e amor com que se gera um filho. Sim, a obra é a filha eterna da artista, revelando o elo inquebrável com a sua progenitora. A outra interioridade, a da artista, é repleta de mistérios semi-desocultados, de imagens suspensas, de emoções fugidias e de sonhos imprecisos. Num movimento de convergência estas interioridades encontram-se, surgindo reificadas ora na arquitectura singular das formas, por exemplo, nas obsessões pelos detalhes corpóreos – os nichos ou invólucros – prolongamentos epidérmicos do ser do homem no mundo –, ora nos incorpóreos títulos: autênticos espelhos da alma da criadora.
A criação é, assim, expressão e manifestação da dialéctica entre os estados de ensimesmamento e exsimesmamento da artista.

O Olhar Cósmico

Pássaro do tempo

Pássaro do tempo

Nas criações escultóricas de Karin Somers é possível detectar alguns elementos invariantes: os rostos humanos ou semi-humanos, as asas e a presença de animais não humanos, como o pássaro, a lagarta, a borboleta, etc.
O rosto surge sempre como a morada do Outro, mas também enquanto veículo comunicador, transporta-nos ao Outro. Numa época pré-linguística é o olhar, quer dizer a visão, que nos permite comunicar. Esta é a condição da relação intersubjectiva, como evidenciou Lévinas. É revelador da alteridade, mas também da mesmidade.
Se observarmos estes rostos que teimam em ganhar vida, constata-se que os seus olhos estão frequentemente cerrados. Prefigurarão os olhos da Alma? Fechados ante os dados captados sensorialmente, fazendo relembrar a teoria platónica do corpo como cárcere da alma? Fechados mas despertos/abertos ante a sensibilidade, fonte inesgotável da criação, do sentir e do existir estéticos?
Confesso que persisto na tarefa incessante de desocultação do(s) seu(s) sentido(s).
A par de uma visão física, sensorial, há outra muito distinta, mais profunda, que se centra e sente nas profundezas dos seres. Será que o fechamento/abertura destes olhos, oposto ao fechamento/clausura, constituirá a (nossa) condição enigmática quando somos confrontados com o Outro, seja concebido enquanto animal humano ou animal não humano?

Deriva

Deriva

Uma vida tranquila

Uma vida tranquila

Se intentasse elaborar uma tipologia do olhar, diria que, tal como os rostos, os olhares são múltiplos: olhar solipsista, olhar descobridor, olhar cogitativo, olhar totalitário, olhar submisso, … Mas o olhar que perpassa nestes rostos, pertença de todos e propriedade de ninguém, é aquele de dádiva ao outro: o olhar relacional. Um olhar simultaneamente de abertura ao Outro, acolhimento e recolhimento. Esta união, não é fusão ou aniquilação do “eu” do outro, é comunhão com sentido e consentida. Mas o que vê pode simultaneamente ser visto. O que olha, artista ou contemplador, transmuta-se em olhado pelas obras. É a esta relação fascinante de circularidade/reciprocidade pura a que as obras convidam.
Um rosto que nos incita a um diálogo silencioso e nos transmite uma ambivalência de mensagens/estados: da quietude, ao desespero, da esperança – mero desejo esvoaçante – à desesperança.
O curioso é que os animais não humanos, em estreita comunhão com os animais que todos os humanos são, têm a virtualidade de os transportar (transportando também o próprio fruidor) pelos vários elementos primordiais: o ar, a terra, a água. E o fogo? Onde estará? Talvez no poder desmesurado que estas esculturas – hierofanias do onírico e do real – possuem porque nos reenviam para uma viagem no tempo: o tempo da comunhão cósmica, da regressão germinativa, o tempo que nega o próprio tempo. Talvez na alma exposta ao sol. Ou no pássaro do tempo. Ou no sonho concebido enquanto murmúrio incessante.
Retive a expressão “bicho-homem” proferida, pela Karin Somers – numa visita que fez à sua exposição, em 2008, no Museu Amadeo de Souza-Cardoso –, aos meus alunos do Curso de Artes Visuais, para exprimir este sentimento de partilha desejável e, cada vez mais irrealizável entre dois universos, ordinariamente não coincidentes. Considero-a deliciosa porque se distancia da desumanização, dado que não se trata nem de uma animalização do humano, nem de uma humanização progressiva do animal não humano, mas de uma comunhão numa temporalidade sonhada. Enquadrada, portanto, numa perspectiva profundamente anti-especista, do ponto de vista ético.
Emergindo do cerne da condição humana, as inquietações somersianas presentes nas esculturas como o tempo (protenso e retrotenso), a quietude, o sonho, a velhice, são radical e genuinamente filosóficas. Com efeito, as interrogações kantianas: o que é o homem? o que devo fazer? o que posso saber? o que me é permitido esperar? surgem tematizadas. A estas, acrescentaria uma outra: de onde vem o homem?, inaugurando o que se poderia designar como “cosmogonia onírica”. Uma narrativa primordial que advém de uma necessidade visceral de transfigurar o real:

Peregrinação à origem do mundo

Peregrinação à origem do mundo

Primeiro que tudo houve a Comunhão das espécies, dos seres animados e inanimados.
Nela reinava a cumplicidade dos silêncios
O murmúrio dos afectos
O eu era o Nós
E nós eramos água, terra, fogo e ar.

 

O aconchego dos outros

O aconchego dos outros

Há um misto de proximidade e distanciamento na relação com os rostos representados porque esta cosmogonia nunca se tece ao nível de uma presentação (objectiva), mas de uma representação, fortemente impregnada de afectividade(s). Respira-se a ambiência, captam-se os detalhes, amorosamente pousados (a inclinação da face, as raízes – elo da comunhão telúrica; a borboleta na boca que persiste em voar; o homem/pássaro que habita em cada um de nós) e deparamo-nos, paulatinamente, com uma viagem à genealogia das espécies.
A magia destas obras é operarem em nós, meros espectadores, o sentimento de lhes pertencermos: sentimos cada fenda como ruga nossa; cada olhar contemplativo como meditação pessoal; cada barco como viagem realizada; cada asa como ascensão ansiada; cada pássaro como metamorfose do eu. Assim, cada elemento, cada pormenor escultural, desvela a existência de uma Metafísica do Sentir, propedêutica a uma ontologia do homem, dos seres e do mundo. Finda a experiência estética da fruição, resta-nos uma profunda saudade por um estado de completude, contrastando com a carência presentificada.
Mas esta consciência saudosa, como evidenciou, fenomenologicamente, Joaquim de Carvalho, surge da ruptura entre duas temporalidades: a que se viveu e a que se vive.
O chamamento que opera em nós esta cosmogonia onírica é tão intenso e avassalador que, por eternos instantes, acreditamos nessa vida de comunhão cósmica, ancestral e cenicamente evocada. É o sentimento nostálgico do “sentir-se eternamente longe de si”, dirá Cioran.
É a atitude do desejo, da vontade, da consciência irracional saudosa por um tempo não vivido, mas sentido. E a saudade deixa de ser do ponto de vista ontológico, exclusiva pertença do animal humano: é uma saudade universalmente sentida, recusando a atitude teorética como (sua) possibilidade.
Atente-se aos títulos. Também eles são parte da teia de comunhão simbólico-afectiva que constitui este universo do sonho/desejo, do sonho/saudoso. São descendentes das obras, cuidadosa e carinhosamente pensados/sentidos. Nas esculturas percebe-se uma harmonia entre a forma e o conteúdo, uma íntima cumplicidade.
No mundo da facticidade, a sucessão temporal revela-se-nos de forma tirânica; no universo onírico somersiano não há sucessão: apenas comunhão. A visão darwinista da evolução das espécies jamais triunfaria. É na regressão, consubstanciada no ser com, que se objectiva o auge, a culminância do pulsar vital das espécies. Nela, descobrimos uma etiologia semi-humana, semi-animal. Descobrimo-nos como pertença de todos, na quietude da dádiva ao outro, concebido enquanto ser igual a nós. As obras narram essa genealogia dos animais humanos, dos animais não humanos e dos elementos (como a derme, concebida como um misto de manto protector e enraizamento/distanciamento do mundo) que constituem o habitat afectivo dessa comunhão ancestral.

Sopro

Sopro

Na hodiernidade somos reféns da temporalidade, vítimas do fluir histórico. Somos “seres-no-mundo”, segundo Heidegger, e este revela-se o horizonte onde o homem se estatui como alvo fácil da erosão do vazio. Gastamos o tempo, desgastando-nos. Somos presas do efémero e predadores do banal. Daí, a necessidade do sonho. Sonho catártico que nos expurga do que somos, emergindo como transparência desveladora dos seres que gostaríamos ter ousado ser.
E as obras desta artista plástica têm o mérito que a própria filosofia não possui enredada em conceitos e em dicotomias várias como a eternidade-temporalidade, animalidade-humanidade, real-ficção: a de se instituirem como modelos de re-interpretação e de transformação do vivido, pelo imaginado ou simplesmente sonhado, enlaçando as referidas antinomias. É que este sonho/desejo tem o poder de recriar o mundo, reinventando-nos.

Viajante

Viajante

E este sossego/desassossego de Karin Somers e das suas obras conduz-nos à interpelação maior: aquela que convida o espectador/contemplador a fruir as obras suspenso – tal como algumas esculturas – de pré-conceitos (menoridades mentais) e de coordenadas espacio-temporais, numa atitude esteticamente desinteressada. É a derradeira comunhão: a da cumplicidade estabelecida com esta cosmogonia in nihilo tempore através da qual confluem os universos da criação, da contemplação e da plenitude ontológica.

A conquista da serenidade

A conquista da serenidade

 

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Bibliografia

Levinas, Emmanuel (1994). “Langage et Proximité. In Découvrant l’existence avec Husserl et Heidegger, Paris: Vrin. (Original publicado em 1967).

Carvalho, Joaquim (1998). Elementos Constitutivos da Consciência Saudosa. Lisboa: Lisboa Editora. (Original publicado em 1952).

Kant, Immanuel (1985). Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. (Original publicado em 1781).

                   (1986). Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70. (Original publicado em 1788).

Cioran, Emil (1997). Précis de Décomposition,. Paris: Gallimard. (Original publicado em 1949).

Heidegger, Martin (1989). El Ser y el Tiempo, México: Buenos Aires, F. Cultura Economica. (Original publicado em 1927).

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Nota Marginal: Artigo de Elsa Cerqueira publicado na Revista CBN, Revista de Estética y Arte Contemporáneo, Spain, diciembre 2010, n.º 2, pp. 30-37.

 

Comments (2)

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  1. Fampty says:

    É sempre fantástico olhar as criações da Karen à luz da pena da Elsa. São duas estéticas que se completam e complementam!
    Parabéns!

    • ElsaCerqueira says:

      Muito obrigada pelo elogio!
      Parece-me, todavia, que as minhas palavras serão sempre redutoras face às sublimes criações de Karin Somers!

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