Exposição na Casamarela: o culto fálico, do sagrado ao profano

Filed in Esculturas PolegarMente.me by on July 18, 2014 0 Comments

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Origens

Amarante é indissociável da beleza do Rio Tâmega, da Serra do Marão, do centro histórico, das obras de personalidades proeminentes da cultura portuguesa com reconhecimento internacional como, por exemplo, Teixeira de Pascoaes e Amadeo de Souza-Cardoso e, inevitavelmente, da figura marcante e sui generis de S. Gonçalo. Este padre pregador foi o visionário que uniu as duas margens do rio e, portanto, aquele a quem se deve a construção da primeira ponte por volta de 1255.

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Crê-se que a designação “Casamenteiro das Velhas” advém das suas idas à aldeia de Ovelha (situada em Aboadela) para oficializar em segredo os habitantes que viviam de forma pecaminosa e que da abreviatura ou supressão do “O” terá resultado “velha” ou velhas. Casou aqueles que a igreja recusava casar. E outros relatos, descritos por Katherine Byrne (artista residente da Casamarela e investigadora da vida e obra do santo padroeiro de Amarante) dão-nos conta da sua personalidade irreverente e insubmissa face à normatividade eclesiástica: “Conta-se, por exemplo, que aos sábados à noite se vestia de mulher e, de viola às costas, visitava bordéis, dando festas tão lendárias que as meretrizes caíam de exaustão, incapazes de pecar no dia santo.” E “em nome do amor e da fertilidade, milhares de mulheres afluíam à sua igreja epónima, desde moças a idosas, para beijar o seu túmulo ou, então, acolhiam as procissões onde se desfilava a sua estátua que, segundo a imaginação popular, sempre que a corda fosse puxada, levantava o hábito e exibia o seu falo erecto”.
E eis que nos deparamos com o “falo de S. Gonçalo” ou com o culto fálico, retomando a temática convergente das obras de arte expostas na Casamarela, o Bolo de S. Gonçalo.
Convém, no entanto, esclarecer que segundo Edward Whitmont, na obra A busca do símbolo, “o falocentrismo cúltico é originário da Índia com a prática do Brahmen de adorar o pénis do Deus supremo, Shiva. Durante o festival da primavera, os homens dançavam com falos de madeira.”
Tal significa que enquanto representação icónico-sacralizada, os falos se associavam, quer na Índia, quer em Amarante, a preces relacionadas com a fecundidade e com o casamento.

Exposição

Durante quase todo o mês de junho esteve patente na Casamarela a exposição colectiva “S. Gonçalo, a vida e o mito”.

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A exposição desenrolou-se segundo dois movimentos inversos, mas complementares: um centrípeto, dado que teve a sua génese nos artistas residentes desta Casa dedicada às Artes, como Mário Peixoto, Kate Byrne, Joana Antunes, Rita Sá, Catarina Almeida, Luísa Seixas e Karin Somers; outro centrífugo, quer pelo convite a outros artistas para participarem com as suas obras, nomeadamente, Júlio Cunha, Manuel Augusto, Verena Basto, Isabel Ribas, Fernando Barros, Julieta Oliveira, Carlos Gallo, Catarina Pinto, Filipe Coelho e o holandês Toussaint Essers, quer pelo desafio “Decora o teu Bolo de S. Gonçalo”, lançado à população amarantina.
Compreendendo as raízes ancestrais e populares do culto fálico, a Casamarela envolveu os amarantinos que comemoram, no primeiro fim-de-semana do mês de junho, nas comummente designadas “festas de junho”, o seu santo. Não será a arte uma outra forma de celebração?
Visitar a exposição foi como aceder ao “reino dos falos”. A pluralidade dos artistas cedeu lugar à multiplicidade das suas obras. Falos de tamanhos díspares, de múltiplas cores, criados segundo técnicas e materiais diversificados, entre os quais destacaria a aguarela, a pintura acrílica, a gravura a óleo, a escultura em cerâmica, em cobre e em azulejo, o arame, o suporte fotográfico, as colagens, a banda desenhada, a técnica de frescos, os desenhos a carvão e digitais, a tinta-da-china.

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Senti que os artistas não se atemorizaram perante o sagrado falo de S. Gonçalo. A moral judaico-cristã e as filosofias, sobretudo a platónica e a cartesiana, insistiram em vilipendiar o papel do corpo e da sensibilidade na existência humana. Mas a representação icónica do falo e a sua associação a S. Gonçalo, a celebração da população e as criações de todos os que participaram nesta exposição contêm no seu âmago algo de profano, de dionisíaco, de transgressor. A obra de arte poderá muito bem ser uma criação dessacralizada do sagrado.
Não posso deixar de realçar um falo muito especial, aquele que foi criado pela turma de Artes Visuais, do décimo primeiro ano, da Escola Secundária/3 de Amarante. Os alunos responderam afirmativamente ao meu repto e, ajudados pelo artista e professor da disciplina de desenho, Júlio Cunha, criaram um falo artístico que surpreendeu os habitantes da Casamarela. Se captaram os detalhes de tal criação, entenderam as referências supra biológicas, quer dizer culturais a que faz referência: elementos nacionais como o vinho e as uvas, o galo (Barcelos), a igreja de S. Gonçalo e os doces conventuais (Amarante). Os rostos simbolizam as diferentes personalidades que constituem o povo. E, por isso, não poderiam faltar os provérbios populares, nem as opiniões díspares veiculadas pela comunicação social disseminada, literalmente, nos pedaços de jornais utilizados.

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Na exposição marcou presença a viola amarantina construída pelo mestre António Teixeira Silva. Aliás, na sua inauguração o público foi brindado com a actuação dos músicos Francisco Rodrigues, João Pinetree e Ângelo Pinto que, numa fusão de géneros musicais, apresentaram quadras de S. Gonçalo em versão rap acompanhadas pela guitarra amarantina.

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Com esta exposição, a Casamarela encetou uma viagem à genealogia da cidade evocando uma das suas mais representações imagéticas mais profundas, genuínas e intensas. A identidade amarantina, o imaginário colectivo ou popular e a criatividade confluíram na celebração do doce fálico. Eis um Falo que Fala as tradições.
O Bolo de S. Gonçalo, também designado como o “Caralho” de S. Gonçalo é, tal como a ponte, a passagem – quiçá a união -, do sagrado e do profano. A tentação de S. Gonçalo e a nossa. Quem intenta resistir-lhe?

 

Elsa Cerqueira

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Nota Marginal Um: Artigo publicado na Revista Gatilho, n.º 10, julho, 2014.

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Nota Marginal Dois: Agradeço à Casamarela o convite para contemplar e escrever sobre a exposição e, particularmente, às artistas plásticas Karin Somers e  Kate Byrne pelas conversas/descobertas que a mesma (me) proporcionou.

 

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